Crítica | Festival

Gerais da Pedra

Nos rincões do brasileiro

(Gerais da Pedra , BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Dcumentário
  • Direção: Diego Zanotti, Gabriel Oliveira, Paulo Junior
  • Roteiro: Gabriel Oliveira
  • Duração: 90 minutos

Passados os dois primeiros dias de competição do Cine PE 2022, Gerais da Pedra parece dizer que o rumo das coisas mudou. Com uma história de fruição mais lenta, é preciso uma boa dose de paciência e sensibilidade para comprar o tempo que pedem Diego Zanotti, Gabriel Oliveira e Paulo Junior, diretores da empreitada. É um documentário que briga, acima das outras coisas, de visibilidade que legitime o discurso de seus personagens. E quem são tais tipos? São os moradores de uma cidade do interior que pode ter abrigado Guimarães Rosa em determinado período. Além disso, o filme debate a existência (ou não) de Diadorim e sua passagem pelas redondezas, personagem que transformou sua obra-prima Grande Sertões: Veredas em uma referência comportamental e afetiva.

O olhar que é lançado para aquelas pessoas em cena, sua cadência e comportamento, a forma como cada olhar, voz e sentimento atravessam a tela, encontrarão uma dinâmica diferente e subjetiva em cada espectador, com certeza. Vai depender do tanto que se envolve com aquele objeto “estranho” proposto ali – a literatura, e a forma como o povo brasileiro consome tal elemento. É reducionista tratar Gerais da Pedra de uma maneira cartesiana, porque o filme não se propõe a estar dentro de uma fôrma previamente construída. Nesse sentido, o filme parece ocupar um lugar que o Cine PE percebeu ano passado em Os Ossos da Saudade, outro documentário sedento por ser descoberto, debatido, ouvido e ainda mais sentido. 

Não é como se estivéssemos acompanhando também algo hermético e desconectado ao público médio, que precisasse ser dissecado matematicamente. É um projeto onde a singeleza do encontro vai na direção das construções que Rosa fazia/faria, revelando muito mais do que reside na alma do povo tanto quanto do que o que os forma geograficamente. Gerais da Pedra tenta não entrar em um lugar de contemplação vazia, que é sedutor e chama pelo filme, mas também como sua obsessão/tema, tem apreço pela palavra falada. Acaba por revelar seus personagens em momentos cada vez mais desconcertantes para si e para o público, e acabam por refrescar a narrativa como uma lufada de vento. A aridez de suas imagens é regada por uma sede de conexão em cada um que se comunica em cena.

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Indo até uma cidade onde possivelmente Rosa teria passado um tempo – em suposições ou ideias não comprovadas, ‘achismos’ no geral – e construindo as passagens de sua obra através dos lugares próximos, o trio de diretores chega a um lugar para beber Diadorim. Aos poucos, o filme desdobra pensamentos sobre o passado, a vida, a morte, o reconhecimento e a sexualidade, a sociedade e a natureza, o tempo e a forma como lidamos com os mitos. Sem muita regra, o filme se desvencilha de certas armadilhas do cinema documental para encontrar uma voz, que se não absolutamente original, ao menos é uma abordagem cujos personagens, e sua brasilidade, delimitam uma toada significativa. 

É como se Zanotti, Oliveira e Junior tivessem, com humildade, também se posicionado em uma perspectiva do que faria Rosa caso voltasse àquela região, e encontrasse aquelas pessoas de hoje. Com o que ele se encantaria, com quem ele travaria contato, com que espaços ele se identificaria, e qual a relação que ele estabeleceria entre seus interlocutores e a bagagem que eles trazem. Sem forçar uma aproximação, Gerais da Pedra naturalmente encontra na prosa do autor o material mais adequado para esse movimento, olhando de frente para aqueles tipos e vendo neles um traço que una o Brasil de hoje ao de ontem, e estabelecer assim um país de sempre, que se encontre para reconstruir uma ideia de povo a partir da polarização gritante. 

Gerais da Pedra ainda estabelece a melhor dinâmica possível a qualquer filme: ele cresce a cada nova cena. O filme parte de um ponto X, e nunca retrocede em interesse, em construção imagética ou campo de discussão social-narrativa; tudo avança e se comunica cada vez mais. Sua montagem estabelece um equilíbrio muito particular entre o que é visto e a reação aos seus sentidos. Como suas reverberações batem em cada espaço cênico, e em como cada um daqueles personagens se comunicam com o povo brasileiro e com a obra de Rosa de maneira diferente, estabelecendo os elos e mostrando novas camadas em suas novas entradas. 

Um grande momento

Uma mulher e sua faca

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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