Crítica | Streaming

Além das Profundezas

Pior do que que qualquer ameaça

(Breaking Surface , SWE, NOR, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Joachim Hedén
  • Roteiro: Joachim Hedén
  • Elenco: Moa Gammel, Madeleine Martin, Trine Wiggen
  • Duração: 82 minutos

Existe uma categoria de filme que nunca vai deixar de fazer sucesso por sua capacidade de provocar reações físicas no público. Variante do terror, o thriller físico pode descambar para várias correntes, desde aquelas onde a angústia é provocada pela ação de personagens, como em Jogos Mortais, O Albergue ou outros títulos de torture porn; até aquelas onde as ações independem dos humanos, com animais, como Águas Rasas, Predadores Assassinos, ou forças da natureza, como Pânico na Neve ou o que deveria ser o filme que acabou de estrear no Telecine, Além das Profundezas, entre tantas outras.

Diferente do que possa parecer, mesmo que a qualidade do filme não seja já grandes coisas, não é difícil fazer com que a angústia transponha a tela, uma vez que esses elementos estão muito relacionados ao próprio corpo. Uma piscina de agulhas, estar em cima de uma prancha cercada por tubarões e respirar no cantinho de uma caverna com a água até o pescoço são coisas que nos desesperam até quando não olhamos para elas, não é mesmo? 

Além das Profundezas

Pois é nisso que quer investir o diretor e roteirista Joachim Hedén neste que é mais um filme sobre mergulho e sobre os perrengues que mergulhadores, aqui de profundidade, passam debaixo d’água em situações completamente inesperadas e extremas. As protagonistas são as irmãs Ida e Tuva, vividas por Moa Gammel e Madeleine Martin, e, seguindo a tradição de tramas do gênero elas têm toda uma complexa relação de competição, inveja e ciúme para resolver desde a infância. Se não as duas, pelo menos a mais velha Ida, contra quem o filme faz questão de jogar o tempo todo. Com a vida desandando, ela é a personagem deslocada, atrapalhada, que não sabe se comunicar, num desenho bem típico de jornada. Do outro lado, Tuva é durona, desenvolta e decidida.

O visual gelado de Lofoten é uma parte importante do filme, já que é para a neve, as montanhas de rocha e todo o cinza que se escapa quando não se está submerso. As tomadas embaixo d’água alternam-se, não sendo tão angustiantes quanto algumas passagens específicas e esse jogo é bom, mas seria melhor se apostasse realmente no poder do ambiente e nos limites do corpo. Hedén se perde. Há algo muito mais desesperador do que a água, o limite do oxigênio, a pressão nos pulmões, o frio e as pedras em Além das Profundezas: o aparvalhamento.

Como se precisasse, além de todas as dificuldades que o roteiro faz questão de acrescentar ao que está acontecendo, a inoperância da protagonista é de matar qualquer um do coração. Além de não conseguir se controlar, ela não consegue pensar em como abrir um carro sem a chave, em como abrir um porta-mala, isso sem falar nas ideias que não levam a nada. As cenas do avião, do cilindro perdido e do cachorro são de quase desistir.

O longa vai se perdendo nas repetições e na duração de algumas cenas, principalmente daquelas em que quer provocar outras emoções. O fato de ter causado, e continuar causando até o final, tanta irritação com a personagem principal também não ajuda. Além das Profundezas contraria sua própria lógica: se o terror era lutar contra a ameaça da natureza, aqui ele se transforma em a pessoa criar ainda mais terror, talvez até mais do que a própria natureza. É como se tudo o que estivesse acontecendo fosse muito pior porque Ida fez alguma coisa. Angustia, com certeza. Causa uma sensação péssima, e estar embaixo d’água talvez tenha 20% a ver com isso, mas é só.

Um grande momento
Knut, o dono das cenas

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo