Crítica | Streaming

Altos Negócios

(Betonrausch, ALE, 2020)
Comédia
Direção: Cüneyt Kaya
Elenco: David Kross, Emily Goss, Frederick Lau, Dejan Bucin, Janina Uhse, David Haack, Uwe Preuss, Silvina Buchbauer, Heike Hanold-Lynch
Roteiro: Cüneyt Kaya
Duração: 94 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Você já viu isso antes: um vigarista encontra outro e não demora até que apareça a pessoa que será a mais descolada e experiente para se juntar aos dois e criar o plano perfeito que quebrará o sistema e fará com que eles se deem muito bem. Batido, não é? Mas o diretor alemão Cüneyt Kaya decidiu investir nesse plot em seu terceiro longa, Altos Negócios, disponível na Netflix.

Impossível assistir ao longa e não fazer algum tipo de associação com filmes de fraudes, como os frenéticos O Lobo de Wall Street, A Grande Aposta, As Golpistas ou qualquer outro. Há uma tentativa clara de confronto e repúdio ao sistema, ainda que construída de maneira vacilante.

Até mesmo a diferença entre as personalidades de Viktor (David Kross, de O Leitor) e Gerry (Frederick Lau, de Victoria), um como o tímido, sem jeito e o outro porra louca e hedonista, traz a sensação de falta de novidade. O único diferencial está no modo como Nicole (Janina Uhse, de Berlin, Berlin) os põe no bolso, com uma personalidade forte e manipuladora, algo que, pelo menos quanto ao gênero, não é tão comum. Mas essa talvez seja a única coisa realmente inventiva e corajosa em Altos Negócios.

Além de toda a familiaridade, o filme não se acerta quanto à própria constituição. Enquanto busca o ritmo frenético, e até o encontra em passagens específicas, procura equivocadamente por uma camada dramática que o justifique e perde aquilo que tinha conquistado até então. O que se vê, portanto, deixa sempre uma impressão de cópia pouco elaborada.

David Kross e Frederick Lau em Altos Negócios (2020)

A quebra de estilo, com a ideia de mesclar à ação flashbacks que tentam explicar as decisões de seu protagonista Viktor, enfraquece o conjunto e não leva a lugar nenhum. Na verdade, falta coragem a Kaya, que até investe em acelerações, muitas festas e uma câmera esperta, mas tem medo de se entregar ao exagero. É como se dois filmes tivessem sido montados juntos por engano. O diretor está sempre preocupado em encontrar justificativas – por isso a aposta no passado entrecortado e pouco profundo de seu protagonista – ao invés de entrar na espiral golpista, ainda que básica, com ação e consequência.

Quando o passado de Viktor o alcança, tornando-se presente, Altos Negócios perde o que restava de equilíbrio entre as linhas temporais e já prejudicava o filme. A narrativa se confunde com uma trama paralela que é deslocada e pouco lógica. Não há justificativa para mais esse desvio, a não ser a participação de Heike Hanold-Lynch (O Grande Hotel Budapeste), que vive a mãe do protagonista. Ainda assim, a impressão que fica é a de que a vontade de ter a atriz no elenco era tão grande, que se inventou de última hora alguma coisa para ela. Pior, entrega em suas mãos o razão de existir da virada do roteiro, escrito pelo próprio diretor.

Mesmo que a importância da passagem só se revele depois, o modo descuidado de inserir algo assim à trama demonstra a falta de segurança de Kaya na história que ele próprio criou. Para justificar todo um universo que não precisa de justificativas – e isso, de alguma maneira, também se releva no final do filme, deixando tudo com menos sentido – ele apela para relações que não foram desenvolvidas e personagens aleatoriamente determinados.

Altos Negócios (2020)

Mas há problemas também com os personagens que recebem atenção desde o começo de Altos Negócios. Talvez por essa postura vacilante e por apostar em tramas paralelas, fica difícil aprofundá-los, ou criar o fundamental vínculo entre eles e o espectador. Mesmo com todo o esforço de Kross em trabalhar com aquilo que tem nas mãos, buscando carisma em Viktor e aquele natural dilema em quem assiste a filmes do gênero, o que se vê é frio, distante.

A falta de conexão é fatal para o filme, que já tinha sido identificado como algo muito próximo de outros títulos mais competentes. O dilema citado, que estabelece a contradição entre o torcer pelo protagonista, mas ao mesmo tempo não concordar com aquilo a que se assiste, é fundamental. E não são apenas as idas e vindas temporais que dificultam isso, mas o próprio desenvolvimento, que ora se dedica ao universo que o circunda, ora muda sua personalidade, ora tenta retomar tudo de uma vez.

Como qualquer produção, Altos Negócios tem lá seus pontos positivos. Toda a construção do ambiente, seja na conformidade visual dos personagens ou na elaboração estética dos espaços físicos, é interessante. Assim como a esperteza de planos, com movimentos de câmera e definição de quadros, ou uma montagem que funciona bem, pelo menos quando intenciona representar a excitação dos golpes ou sua comemoração.

Trocando em miúdos, Altos Negócios é um filme que pode ser assistido sem expectativas, mas que não vai deixar muita coisa para trás. Outras opções de golpistas, e são muitas, são mais garantidas.

Um Grande Momento:
A festa do início.

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IMDb

Assistir na Netflix

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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