Crítica | CinemaDestaque

Amado

Apenas Amado existe?

(Amado, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Edu Felistoque, Erik de Castro
  • Roteiro: Erik de Castro
  • Elenco: Sergio Menezes, Alexandre Barillari, Igor Cotrim, Gabriela Correa, Adriana Lessa, Neco Vila Lobos, Brenda Lígia, Sergio Cavalcanti
  • Duração: 90 minutos

Quinze anos depois do lançamento do Tropa de Elite original (nunca esquecer: filme vencedor de um Urso de Ouro no festival de Berlim presidido por Costa-Gavras, um papa do cinema político), as questões que ele levantou acerca de um fascismo mais do que conhecido envolvendo as forças de segurança cariocas (do país?) poderão voltar. José Padilha foi acusado de glorificar seu capitão Nascimento, mas como diz o letreiro final de Amado, filme que estreia nos cinemas agora, “Amado existe”. Amado, Nascimento, e tantos outros policiais, integrantes das civil, militar ou de táticas especiais, todos estão em diversos graus de exposição à violência extremada, à corrupção, à se equiparar nas figuras que deveria repreender e coibir, mas que acabam – às vezes com muita facilidade – escapando para o lado escuro da força. Que Amado existe, é mais do que sabido, todos os dias somos informados disso, infelizmente.

Amado é inspirado em eventos e personagens reais, ambientado na Ceilândia, bairro periférico de Brasília, e deixa a desejar que falte ao filme um olhar menos direto para seu protagonista. Porque não estamos falando de um filme ambientado em um lugar qualquer, de uma cobertura da Atlântica ou de uma mansão no Morumbi. A partir do momento onde sua personagem feminina principal não é uma profissional da lei além de ser moradora da região, o roteiro de Erik de Castro perde a oportunidade de ampliar a discussão a respeito da truculência, da movimentação miliciana dentro das forças de segurança através dos olhos civis – que Alemão 2 faz tão bem. Ao invés disso, o filme pode se defender ao declarar-se tratar de um estudo de personagem fechado, o que pode ser retrucado com uma indagação a respeito de não sabermos muito mais a respeito de Amado além de que ele está apaixonado, trabalha com artesanato em ferro e tem dois peixinhos.

Castro, além de roteirista, é também um dos diretores, ao lado de Edu Felistoque. Ele é brasiliense, já dirigiu ao menos outro longa a respeito do recorte da força policial da capital (Federal) e está prestes a lançar um outro que vem sendo adiado graças a pandemia (Cano Serrado), e aqui avançou um pouco em relação ao que apresentou no filme protagonizado por Selton Mello em 2010. Tecnicamente há cuidado com o trabalho de som, e a montagem comandada por Felistoque encadeia as cenas com alguma inteligência, além do filme ser enérgico e conciso. Ainda que resvale para uma certa breguice de soslaio, o filme comporta alguma vivacidade, algum senso de tensão real que advém daquele grupo de personagens em convívio constante com uma violência que é parte de seu dia a dia. Essa é uma qualidade da produção, nos colocar no centro dessa força maior que incinera qualquer um que se aproxime de maneira palpável.

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Com a escolha de inserir seu grupo diretamente no olho do furacão da milícia, Amado não deixa muito espaço para a crítica do que está sendo visto, essa feita diretamente pelo espectador, caso queira. Não se trata de uma produção amoral, e seu personagem-título não é chapado em suas questões; Amado realiza coisas inacreditáveis, mas dentro de uma lógica muito particular de justiça/justiçamento. Ainda assim, não há perspectiva de debate dentro de sua esfera de alcance; há um pesar pelo que se faz, da forma como faz, mas isso parece restrito a um único personagem, que não verbaliza seu incômodo, ainda que o filme mostre todo esse emaranhado. Quando apenas uma versão dos fatos é vista, e tratada como algo admissível diante das circunstâncias, diz-se que é um lado comprado pela produção, não é mesmo? Mesmo que, sabidamente, estejamos em uma bolha que condena tais atos; não podemos contar somente com essa parcela de espectadores.

Algo de positivo é visto em Amado: a descentralização dos suportes de atuação. Quando um filme abraça em seu elenco atores que não estão protagonizando as produções, ainda que devessem, e estão todos a mercê de seu talento em cena, fica mais claro que o trabalho de reuni-lo foi não apenas prazeroso, como acertado. O protagonista, Sergio Menezes (de O Novelo), é um dos mais talentosos e pouco aproveitados atores de sua geração, e sua presença em cena não apenas transmite tudo que seu personagem é, como também evidencia os maus tratos com sua história. Alexandre Barillari surgiu como uma promessa de galã nos anos 90 e não aconteceu; o filme mostra que foi mais um descaso. Adriana Lessa é uma bela atriz que o cinema nunca abraçou. Igor Cotrim ganhou prêmios com Elvis & Madona, está ótimo em Os Príncipes e também avança menos do que deveria. Brenda Ligia, Gabriela Correa, Sérgio Cavalcante, Neco Vila Lobos, estão todos muito bem. No geral, é um elenco que deveria ser olhado, e observado não apenas sua qualidade e adequação, mas entender que o cinema não encontrou muita gente que poderia ter encontrado.

Na contramão desse grupo de atores e dos acertos técnicos de ‘Amado’, está o que não é dito a contento pela sua narrativa. Existia um mundo de possibilidades onde o roteiro poderia ter contado sua história com mais abrangência e pertinência. Sim, centralizar os eventos em seu protagonista é um caminho escolhido para dar voz a um estudo de personagem, mas a narrativa escapa momentaneamente de Amado para seu parceiro, ou para sua namorada, ou seja, há vida correndo ao redor dele. Quando Amado resolve fingir que está apenas realizando seu estudo e omite todo um outro estado de coisas que está acontecendo igualmente ao seu redor, escolhe fechar olhos e ouvidos para onde está o cidadão comum. E se ele não está em cena, é porque ele foi devidamente excluído para que ações tresloucadas, danosas e potencialmente suicidas sejam vistas com olhos menos questionadores.

Um grande momento
O primeiro encontro entre as equipes rivais, na abordagem da madrugada

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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