Crítica | Festival

Anything for Jackson

Uma embalagem antiquada, mas um tanto quanto original

(Anything for Jackson, CAN, 2020)

  • Gênero: Horror
  • Direção: Justin G. Dyck
  • Roteiro: Keith Cooper
  • Elenco: Sheila McCarthy, Julian Richings, Konstantina Mantelos, Josh Cruddas, Yannick Bisson
  • Duração: 97 minutos
  • Nota:

Marrom. Pouca luz. Uma idosa arruma algo na cozinha enquanto seu marido,  também idoso, surge do outro lado do plano. A forma frontal com que são apresentados, algo entre o teatro e a propaganda, em uma conversa que não parece fazer sentido, dá força ao desconhecido, faz com que Anything for Jackson mais do que no estranhamento, apoie-se no inesperado. 

Nada do que vê no filme de Justin G. Dyck parece ser muito original, a estrutura narrativa é a mesma de outros filmes de invocação, com o mesmo andamento, sequência de eventos e até personagens específicos, como o especialista que sempre surge do além e não tem mais nenhuma função na trama. Porém, no igual há novidade, e ela começa a ser mostrar no inusitado da ação dos personagens principais, o casal de idosos do começo.

Não é sempre que se vê (ou o cinema deixa que se veja) um casal de idade folheando um livro dos mortos e arquitetando planos elaborados de sequestro para realização de rituais macabros. Diferente também do tradicional, o demônio não vem, toma um corpo e justifica longas sessões de exorcismo. Aqui, eles querem enfiá-lo no corpo de uma grávida para trazer o neto de volta. 

Anything for Jackson é um filme divertido que traz o espectador para perto de todas as atrapalhações em tela. Tudo está disposto numa forma conhecida, é familiar, mas, ao mesmo tempo, é absurdo. Supreendentemente, Dyck, um especialista em telefilmes de Natal, abandona completamente o verde e o vermelho, para integrar sombras e luzes, tons terrosos e escuros, e muitos elementos clássicos do gênero, como jump scares, contorcionismos, gritos e sangue.

É como se víssemos a realização de uma demanda frustrada pela necessidade de pagar boletos, como aquele guitarrista de banda de dupla de sertanejo que na hora de ser apresentado ao público toca um solo de Stevie Ray Vaughan. Dyck se liberta e, fora alguns cacoetes, como uma ou outra disposição cênica ou os flashbacks a la Hallmark Channel, entrega um trabalho bem interessante, com cenas chocantes, noção do tempo do horror e o humor que o permite romper com certas regras do gênero. 

No fim das contas, embora Anything for Jackson venha numa embalagem antiquada e traga as mesmas peças por fora, o que se vê é original. E é interessante como esse jogo está tão claro na escolha dos protagonistas no roteiro de Keith Cooper (outro especialista em filmes de Natal). O tempo passa e cristaliza, mas sempre pode haver alguma novidade por trás de tudo, um novo caminho. Assim são os sequestradores idosos flertando com satanismo ou a galera das comédias familiares de fim de ano que se entrega a um bem-humorado horror cheio de monstros estranhos e mortes bizarras.

Um grande momento

Você acha que eu não conheço os batimentos cardíacos do meu neto?

[NightStream Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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