Crítica | Streaming

Apresentando os Ricardos

Retrato de atrizes em pleno ofício

(Being the Ricardos, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Aaron Sorkin
  • Roteiro: Aaron Sorkin
  • Elenco: Nicole Kidman, Javier Bardem, Nina Arianda, J.K. Simmons, John Rubinstein, Alia Shawkat, Jake Lacy, Tony Hale, Linda Lavin, Ronny Cox
  • Duração: 131 minutos

É de fácil entendimento o que Aaron Sorkin tenta fazer em Apresentando os Ricardos (Being the Ricardos), seu novo filme a estrear hoje na Prime Video a fim de conseguir umas certas indicações ao Oscar. Pra quem não pegou a referência do título, o filme tenta capturar a essência de quem foi Lucille Ball, se não a maior comediante da história da TV americana, e do seu marido Desi Arnaz, também seu partner em I Love Lucy, considerado por muitos o maior show cômico de todos os tempos. A tarefa, como podemos ver, não era fácil, mas o roteirista já multi premiado por A Rede Social encapsula no espaço de uma semana todos os elementos necessários para que essa biografia – biografia??? – fizesse sem sentido, sem demarcar tão pesada as piores características do gênero, o arco tradicional “infância – sucesso – velhice”.

Ainda que esteja longe do seu melhor momento, Sorkin tem 30 anos de experiência e sabe que essa é a saída mais negativamente confortável para um projeto biográfico no cinema, e foge dele. As ambições, no entanto, foram as maiores possíveis, e o filme acaba assolado em uma semana específica da vida do casal, onde Ball era acusada publicamente de comunismo e Arnaz era acusado publicamente de adultério. Tais assuntos assolam o período onde a estrela tem um episódio específico da sitcom tem desdobramentos complexos de roteiro e direção (também motivados pelo estresse que pairava no ar) e uma nova gravidez de Ball era anunciada. Como podemos ver, não era pouca coisa nem de pouca complexidade para uma mulher, por maior que fosse seu poder na indústria, pudesse enfrentar nos anos 50.

Duas situações extra ainda são acrescidas ao leque de discussões do filme, tendo seu desenvolvimento com resultados muito mais qualitativos, no que tange sua pertinência e arco, de elaboração enfim completada. Uma fala sobre o machismo estrutural da indústria entretenimento, que não acomete apenas os personagens masculinos; a própria Ball, na relação com sua coadjuvante, demonstra nenhuma sensibilidade às questões que também a atingem enquanto mulher. O outro é a desenfreada disputa de egos/poder na mesma esfera, aqui empregada em gradações distintas, indo do que seria o mais sutil do ponto de vista cinematográfico até o mais agudo e explícito, ainda colocando luz sobre um assunto pouco recorrente na arte, mas de conhecimento amplo.

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Apresentando os Ricardos
Glen Wilson/Amazon Prime Video

Essas duas questões, que são mais genéricas no que concerne todo o leque de personagens de Apresentando os Ricardos e não apenas com foco específico nos protagonistas, são as que tem condução mais abrangente e de compreensão mais belicosa, sendo Sorkin feliz na abordagem e nas soluções dramáticas que propõe como um todo. Espalhadas em intenção pelo grupo inteiro de atores, sem dizer diretamente a dupla central e assim podendo se descolar dos aspectos obrigatórios, o roteirista/diretor tem a possibilidade de demonstrar suas infinitas capacidades, e que aqui, assim como no anterior Os 7 de Chicago, estavam soterrados em obrigações biográficas que escondiam suas melhores características; Sorkin ainda precisa adquirir, enquanto cineasta, a liberdade estética que seus roteiros dirigidos por outros conseguem com mais facilidade.

Esteticamente falando, esse é entre seus três longas, o que mais busca saídas dentro das armadilhas impostas pelo seu próprio roteiro. Ainda que não haja soluções para todas, ou que seja plenamente bem sucedido, Sorkin empreende avanços que ainda não tinha demonstrado, mas também volta a cavar covas para sepultar a si mesmo. A ideia do mockumentário (ou documentário falso) é boa e tem saídas interessantes, mas soa como uma solução apressada decidida na última hora, tendo em vista que foram chamados apenas três “atores” para servir de base para o jogo, num conjunto onde muito mais pessoas estavam inseridas. Já as elipses onde Ball realiza as cenas na própria cabeça são um acerto só, servindo tanto como ferramenta dramática para salientar as obsessões da estrela com a própria obra como também para recriar cenas clássicas da sitcom – que são ao mesmo tempo irresistíveis para o diretor e obviamente também para sua estrela. Dito isso, imperdoável que a sequência da fábrica de chocolates não tenha sido incluída, de alguma forma.

De tudo que se forma em Apresentando os Ricardos, no entanto, quem mais entende que precisa realizar diferentes camadas de entendimento, de amplitude narrativa desenhadas no próprio corpo, essa pessoa é Nicole Kidman. Ainda que os trabalhos de Javier Bardem, J. K. Simmons e Nina Arianda sejam deliciosos, é Kidman quem comanda o show e transforma sua Lucille Ball em um tipo tão rico e vasto quanto possível, sublinhando suas intenções em capítulos diferentes – afinal, ela também é Lucy Ricardo. Sua interpretação é a alma de um filme tão repleto de possibilidades que se embanana nelas mesmas, sua protagonista consegue driblar em plenitude a gama de situações e sentimentos que precisa atravessar naquele exíguo espaço-tempo. Os resquícios de um Sorkin ainda mais afiado encontram essa mulher possuída pelo que de melhor a arte tem a oferecer, e com ela rimos e choramos em seu retrato tão acurado de uma artista em grau máximo.

Um grande momento
A tina de uvas

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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