Crítica | Streaming

Ataque dos Cães

Antes das montanhas

(The Power of the Dog, GBR, EUA, AUS, CAN, NZL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Jane Campion
  • Roteiro: Jane Campion, Thomas Savage (novel)
  • Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Kodi Smit-McPhee, Thomasin McKenzie
  • Duração: 127 minutos

Em determinado momento de ‘Ataque dos Cães’, chega ao rancho da família Burbank como uma espécie de presente de casamento, um piano, comprado por George à sua esposa Rose. Carregado por um séquito de vaqueiros em 1925, a qualquer pessoa esse plano lembraria o hoje histórico ‘O Piano’; que essa produção que acaba de estrear na Netflix seja dirigido pela igualmente histórica Jane Campion é uma moldura que ela pouco costuma fazer por não misturar egocentrismo ao seu descomunal talento. Portanto, tal cena cria no espectador mais do que uma auto referência, mas a certeza de que Campion reconhece o material que encontrou como sendo referencial seu, se apropria do romance homônimo e extrai dele as molas necessárias para tornar a investigar as relações humanas com base em aparências e no que jaz abaixo delas.

A obra original de Thomas Savage veste as centelhas do cinema da neozelandesa de maneira muito própria, enquanto a mesma encontra no cerne do oeste bravio americano uma inquietação que perpassa sua obra, de conotação questionadora a respeito de, entre tantas coisas, a relação entre os seres e sua realidade inóspita, e como a aridez de cenário contribui para o molde desses mesmos seres. Entremeando na secura da vastidão espacial aspectos que lidam com o paralelismo de uma mesma aridez humana, e em como suas vidas são soterradas pela convenção em nome dos próprios anseios, nesse sentido ‘Ataque dos Cães’ é um filme de fácil captura, porque conhecemos Campion e sua obra, que encampa os silêncios, o abismo que separa o que se quer do que se faz, e reveste o desejo como um papel de parede; ele está lá, mesmo aparentemente escondido.

Kirsty Griffin/Netflix Jesse Plemons e Kirsten Dunst,

No centro da discussão, os irmãos Phil e George se contradizem dentro do que são, e essa paleta dá riqueza a narrativa, multifacetando suas criações. Embora assertivo e frontal em seu universo, Phil é uma esfinge para vazar suas intenções, e com isso dissemina um caos silencioso à sua volta, com desconcertante incômodo. Já George tem uma aura de aparência tímida, mas literalmente faz o que quer sem pedir licença, toma sua intencionalidade à unha e nunca deixa de se credibilizar diante do espectador, porque ainda que não exale confiança, o personagem nunca deixa de avançar. Ao percebermos que Campion molda um universo masculino cuja presença feminina capitaliza o desassossego, se torna salutar à sua filmografia acompanhar esse recorte humano a partir do olhar de vertentes do macho enclausurado, à sombra de uma mulher.

Apoie o Cenas

Phil se intoxica e ao seu redor igualmente porque seu irmão extravasa o desejo, ainda que de maneira contida, e conquista um lugar na cadeia de eventos social ainda que em uma moral antiquada – nascer, formar-se social, estabelecer família – enquanto a ele coube uma função única, cujas casas não conseguem avançar por conta de um olhar exterior, que o impedem de enxergar em seu próprio desejo uma saída para a “felicidade”. As aspas se fazem necessárias porque esse conceito pequeno burguês cabe no filme em outro registro, porque o sonho de encontrar um caminho pacífico dentro de um universo tomado pela imposição social; refletir seu olhar no outro já é a conexão possível, vamos então agarrá-la. George o faz, e a cena que ele e Rose minimamente se tocam no vale compreende todo seu universo.

Kirsty Griffin/Netflix Benedict Cumberbatch e Kodi Smit-McPhee

Junto de Rose, seu filho Peter vem até o rancho para confundir as decisões daquele microcosmos, no que concerne uma base de futuro ali formatado. O jovem vivido com brilhantismo por Kodi Smit-McPhee não é algo de fácil assimilação, pelo espectador ou pelo senso comum local do universo. Não se trata necessariamente de sexualidade mas da captura de uma imagem clara de intenção ali, é isso que está à margem dos acontecimentos e é isso que sua presença acarreta. Se Rose irrompe naquele meio 100% masculino com sua fragilidade que é dilacerada, se Phil recorta com a toxicidade que lhe é peculiar todas as relações que estabelece, Peter é o mistério que Phil identifica como seu, e que pode trazer a ruína ao seu codificado senso de direção. O que Smit-McPhee faz é tão precioso porque não alardeia sua natureza, esconde não apenas sua orientação direta, mas principalmente o espaço como adentra aquele mundo, com suavidade mas igualmente com um plano.

Campion filma esse sutil campo de batalha, onde tudo é meticulosamente implodido, com sua habitual destreza em observar a destruição em massa que as impossibilidades de comunicação para com o próprio desejo causam, a si e ao seu entorno. Dessa vez, alguém parece ter a certeza de seus atos, ainda que não os revele. As lentes de Ari Wegner ousam descortinar não apenas a vastidão das pradarias filmadas, na verdade vão muito além e devassam o interior de mentes e gestos, toques e andar e luzes, que existem para ora revelar, ora trazer ainda mais incerteza. Também a trilha de Johnny Greenwood certifica o filme de tratar-se de espirais obsessivas e sem controle, embora os personagens o desejem, o trabalho musical rejeita a razão, trazendo desconforto e ruído ao já pronunciado desconforto.

Netflix Kirsten Dunst

Em reflexo a Peter, Phil revela-se e transforma ‘Ataque dos Cães’ em uma oração para a auto castração, que nos impede recusar o veneno que nós mesmos servimos ao mundo. Arrastando uma carcaça decisória pelos cenários que escondem uma profunda incompreensão consigo mesmo, Benedict Cumberbatch sabe absolutamente tudo o que fazer em cena, e talvez por isso seja tão doloroso acompanhar sua recusa à mudança que já está em curso. Acompanhando uma derrocada sem freio do passado, o filme precede a consciência de uma outra forma de sonho americano, aquele que prega que somos livres para realizarmos quem quisermos ser com nossa própria existência. Breve viriam paredes de pedra para quebrar, breve viriam montanhas para desbravar, breve viriam síndromes para nos devastar… mas Campion conta aqui o prelúdio de tudo.

Um grande momento

Um cigarro para dois

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo