Crítica | Cinema

King Richard: Criando Campeãs

Biográfico e contundente

(King Richard, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama, Biografia
  • Direção: Reinaldo Marcus Green
  • Roteiro: Zach Baylin
  • Elenco: Will Smith, Aunjanue Ellis, Jon Bernthal, Saniyya Sidney, Tony Goldwyn, Demi Singleton
  • Duração: 138 minutos

Um pai turrão de Compton, no sul do condado de Los Angeles, quis ser mais do que, nas próprias palavras “um negro burro” e, empurrando um simples carrinho de supermercado recheado de bolas de tênis, treina as filhas de 4 e 5 anos de idade, na modalidade elitista. Para além do jogo, King Richard: Criando Campeãs é sobre firmeza de propósito.

A persistência, teimosia e certa intransigência do carismático Richard Williams (Will Smith) são preponderantes desde a primeira cena do filme, contagiando as pequenas Venus (Saniyya Sidney) e Serena (Demi Singleton) e até a resiliente mãe, Brandi (Aunjanue Ellis) também guardiã do sonho. O plano do patriarca é simples e certeiro, talvez um pouco ambicioso mas repetido com tanta ênfase e sem cerimônia que ninguém ousa duvidar: ele quer fazer de Vênus a maior tenista mirim da região e futuramente a número 1 do ranking mundial.

Courtesia Warner Bros.

Filho de pai afro-americano e mãe Porto-riquenha o cineasta Reinaldo Marcus Green sai da seara independente como uma grande aposta de Will Smith para dirigir a produção e corresponde à altura, porque o filme sim, se esmera bastante no carisma do astro como intérprete da figura biográfica central mas se não fosse uma produção bem conduzida, de nada adiantaria. O envolvimento das tenistas na produção do filme também influi no resultado final aparente, com um espaço de relevância na história sendo dado a figura de Brandy, tão importante quanto porém menos incensada que Richard; além de reforçar como que os estudos e a manutenção da infância delas sempre foi prioritária assim como a decisão por deixar a disputa dos torneios juvenis de lado por três anos, o que deixou Richard rompido com o amigo e treinador de John McEnroe, Paul Cohen e em maus lençóis com o treinador de Vênus e Serena e seu patrão, Rick Macci.

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É curioso ver uma performance comedida de Smith ainda que potente (há uma semelhança grande no jeito ainda que fisicamente não haja nada em comum com o biografado) e King Richard se situa como um drama familiar que ainda assim deve cativar os fãs de tênis, não só por retratar a infância e o começo da carreira de duas lendas do esporte como trazer outras tenistas importantes dos anos 90 como Jeniffer Capriati e Arantxa-Sanchez Vicário ou mesmo apresentar alguns momentos de tensão e emoção decisivos dos sets disputados.
Pena que o filme não usa o recurso do filme francês O Quinto Set de estar dentro da quadra e tornar as disputas mais nervosas mas é compreensível já que King Richard é mais sobre a construção e execução de um plano de vida e desse objetivo em curso.

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E King Richard desenha o início de um legado de sucesso das irmãs Williams, da mais bem sucedida tenista da história – Serena, com seus 77 títulos sendo 23 grandes slams e uma medalha olímpica – com a premissa inteligente de se tratar de um conto de origem sobre a superação do estigma do preconceito num esporte elitizado e branco. Da crença e inspiração no próprio talento sustentados pela poesia de James Baldwin, a música de Beyoncé na trilha ou a citação a manifestação em Seneca Falls, Richard lembra as filhas, no momento em que Vênus se prepara para disputar o primeiro torneio profissional na carreira, que “Esse é o momento pelo qual lutamos todos esses anos… Se mantenha focada e não tenha medo.”

Um grande momento

A visita da assistente social a casa dos Williams

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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