Crítica | Cinema

Até a Morte – Sobreviver é a Melhor Vingança

Peso morto

(Till Death, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: S.K. Dale
  • Roteiro: Jason Carvey
  • Elenco: Megan Fox, Eoin Macken, Callan Mulvey, Jack Roth, Aml Ameen
  • Duração: 88 minutos

Foram meses ouvindo o boca a boca a respeito dessa estreia nos cinemas desta semana, ‘Até a Morte – Sobreviver é a Melhor Vingança’. Se o burburinho alto se justifica ou não, isso se dá mais por conta de como cada um lida com suas expectativas; as minhas eram altas e foram compensadas, ainda que parcialmente. Após um começo onde sua dupla de protagonista parece muito marcada, quase afetada na verdade, na criação de seus estereótipos, o filme engrena depois que acontece a primeira morte da produção. Antes disso o público se perguntará onde foram encontrados dois atores tão comprometidos com suas próprias imagens, esquecendo por completo o material apresentado. É uma impressão inicial que nem dura além do esperado não, mas que deixa na boca um gosto amargo e uma dúvida quanto à experiência proporcionada, que vai melhorar bastante, se você permitir o risco de continuar. 

Megan Fox nunca foi atrelada a grandes interpretações ou como o futuro da arte dramática. Seu parceiro de cena, Eoin Macken, está em registro tão agudo quanto o dela, ainda que ambos em estados diferentes. Ela, em melancolia apática tão profunda que sua beleza estonteante registra de maneira quase agressiva; como uma mulher tão ostensivamente bonita e absurdamente bem vestida e maquiada, mantém esse ar carregado? Já ele, exala escrotidão a cada vez que abre a boca, sem qualquer régua que o mantenha dentro de um nível de humanidade aparente. São dois avatares que se complementam pelo excesso nesse início onde tudo está alguns tons acima do razoável, ainda que a sugestão da direção diga para o espectador embarcar em uma maré de tristeza. Quando acabam os primeiros 20 minutos, o filme enfim começa. 

Até a Morte
Screen Media Films

Respeitando o direito de quem, como eu, não lê sinopse ou vê trailer, dá pra dizer que a situação em que a personagem de Fox se vê arremessada é horrível a princípio, e ao longo da produção vai parecendo que essa fatia inicial de desespero era o lado bom da coisa. Macken fica em cena somente no esquema de avatar assumido e funciona bem melhor em gravações de áudio e na nossa lembrança do quão escroto era. A atriz de ‘Garota Infernal’, essa sim, vira uma ‘badass’ pra ninguém botar defeito, e passamos a torcer efetivamente por Emma, uma jovem mulher que só se deparou com desgraça na vida e agora está literalmente agarrada a um peso morto. A cena onde ela grita exatamente isso é daqueles momentos onde a libertação da voz de alguém, que esperava o momento certo para explodir daquele jeito, adicionado ao bizarro da situação que se deflagrou, valem o ingresso. 

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SK Dale, apesar da experiência como curtametragista, estreia aqui na direção de longas no que parecem ser muitos curtas unidos por um fio narrativo. Não estão desconectados uns dos outros, mas parecem vários filmes em diversos momentos diferentes, uns melhores que outros. A abertura empolga menos, por sua construção exagerada de uma naturalidade artificial, mas o filme avança e o ritmo se acerta, os atores parecem cada vez mais à vontade e a jornada de insegurança de Emma em meio à vastidão de uma neve inclemente faz sentido para o que veremos. É um conjunto de situações, acontecidas em blocos, que o diretor parece entender o sentido dentro de suas experiências anteriores, encontrando elementos cada vez mais intensos para representar a agonia interminável da protagonista.

Até a Morte
Screen Media Films

Quem conhece o crítico a quem é dedicada leitura nesse momento, sabe do meu apreço a narrativas que incluam paisagens congelantes como catalisador do que for – drama, suspense, ação, comédia, quando bem utilizados, os elementos de gênero se avolumam no ambiente nevado. ‘Até a Morte’ não é diferente, ainda que não utilize esse belo elemento cênico com maior frequência, para criar ainda maior atrito entre a proteção e o perigo. Mesmo assim, Dale é eficaz em torná-lo um coadjuvante de respeito ao thriller, sempre resgatado quando o filme precisa dele para emboscar novos personagens. Também não existe, no geral, um tratamento estético dessa condição climática, ainda que o desfecho do filme seja um refém respeitável das intempéries surgidas a partir do inverno extremo. 

O diretor, ainda inexperiente no formato, não agarra com unhas e dentes a oportunidade de fazer de ‘Até a Morte’ um veículo do seu trabalho. Sem dúvida um título que merece a conferida, o filme avança sempre muito mais pela tensão dos elementos compreendidos do que pela criação imagética de seu gerente. O suspense que corre por sua curta duração está na exata zona do que o filme fornece narrativamente do que imageticamente, ainda que não seja absolutamente desprovido de material estético. Entende-se, no entanto, que o filme não era um estudo cinematográfico mais arrojado, mesmo que sua premissa quase implore por uma direção superior. O que é entregue, ao fim e ao cabo, é o suficiente para entreter, com um clímax muito delirante e repleto de twists em si mesmo. 

Um grande momento
A chegada dos desentupidores de cano 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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