Crítica | Outras metragens

Work

A dor da perda

(Work, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: April Maxey
  • Roteiro: April Maxey
  • Elenco: Marisela Zumbado, Elaine Whae
  • Duração: 13 minutos

Se em My Dear Boy o que se vê é a antecipação, em Work está a confirmação. Como num exercício de expectativa e realidade, os dois curtas, apresentados em sequência no programa “See Me, Feel Me” de Tribeca esse ano, falam de como é difícil esse tal de amor. De um lado, algo que não começou, de outro algo que já não mais existe. Não existe, mas Gabriela ainda sente, ainda persegue, ainda quer que exista. E que hoje em dia são tão mais difíceis de se afastar, já que basta um toque no celular para ver a nova felicidade.

Dirigido por April Maxey, o curta é eficiente no acessar dessa dor, que é tão familiar até mesmo para aqueles que, diferente dela, não conhecem sentimentos tão fortes como o amor, pois basta um envolvimento para que o afastamento ou a ruptura sejam dolorosos e que a próxima relação da outra pessoa cause ciúme e sentimentos confusos. Nesse momento de identificação e conexão, muito facilitado pela atuação de Marisela Zumbado, tudo funciona muito bem, mas algo se perde quando o filme se distancia do indivíduo.

Work perde a força quando resolve se entregar a um voyeurismo não tão positivo, ainda que tudo comece de forma justificada. No cinema, historicamente, há um interesse no filmar de corpos que ultrapassa a linha da relevância narrativa. Existe uma nem sempre tênue linha entre o olhar de desejo e a exposição não objetificada. Isso se confunde, não propositalmente ou com má-intenção, já que estruturalmente sujeitas a esse cinema e criadas nesta sociedade, além do talvez interesse nos corpos retratados, e pode ser percebido aqui.

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Além disso, calcado numa realidade de desilusão e dor, a história de Gabriela até poderia ter uma passagem pela sua antiga profissão, e o encontro com o seu passado, de uma outra forma, mas o faz em tanta melancolia que evoca um cinema LGBTQIA+ que ocupa muito espaço, e talvez não seja tão interessante como obra de representação e representatividade. Ainda que essa seja uma discussão que merece ser prolongada.

Porém, Work tem seus méritos e  consegue se recuperar, principalmente ao se conectar novamente quando traz de volta à tela outros elementos tão comuns, como a mensagem ou ligação inesperada para falar o que não se quer ouvir ou aquele item esquecido que é cobrado. É mesmo quando fala do fim, o momento que todo mundo (o quase todo mundo) conhece, e da forma mais simples que pode, que o filme cresce.

Um grande momento
Pegando o moletom

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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