Crítica | Festival

A Wounded Fawn

Mitologia subversiva

(A Wounded Fawn, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Travis Stevens
  • Roteiro: Nathan Faudree, Travis Stevens
  • Elenco: Sarah Lind, Josh Ruben, Malin Barr, Katie Kuang, Laksmi Priyah Hedemark, Tanya Everett
  • Duração: 91 minutos

Na mitologia grega, as Erínias, conhecidas como As Fúrias, são as deusas que punem aqueles que causam o mal, as responsáveis por torturar e castigar crimes. Como qualquer divindade grega, há muitas origens e versões — se surgidas de gotas de sangue, filhas de Hades ou de Nix –, mas Tisífone, Megera e Alecto acabaram mais conhecidas pelo julgamento de Orestes após o assassinato de sua mãe. Ctónicas que são, em A Wounded Fawn elas são apresentadas rapidamente, individualmente, logo no começo do filme, com a escultura “A Ira das Erínias”.

É divertido o modo como Travis Stevens, apaixonado pelo horror que já dirigiu A Garota do Terceiro Andar e Jakob’s Wife, vai construindo o crescente do interesse com a simplicidade de um leilão e, ali, estabelece traços de personalidade que se confirmam nas cenas seguintes. Mesmo que a crueza e obviedade das intenções esteja ali nas cenas, e irrite por aquela de noção característica de personagens de filmes do gênero, o longa envolve pelo inusitado.

Há quebras inesperadas, como aquela entre o personagem psicopata e a próxima vítima que se coloca em um perigo — detalhe aqui para mais uma visita das Erínias na forma clássica dada por Bouguereau — e boas inversões de expectativa, quando os passos naturais da trama sofrem alterações inusitadas, como a mulher no jardim e a luz que se acende na hora em que a outra divindade aparece.

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Essa sensação de filme solto, de imprevisibilidade, é muito benéfica a A Wounded Fawn que, ainda que não haja perfeição, consegue criar uma outra costura para algo entre o splatter, o final girl e o revenge. Tudo está ali, mas de forma diferente e ganha uma riqueza adicional ao buscar na mitologia motivos para essa amarração. Exagera na falação talvez, mas ganha pontos na estética da recriação da punição torturante das Fúrias em seus delírios profundos e infinitos.

Depois que Tisífone, Megera e Alecto finalmente se reúnem o filme se entrega a um outro registro, à psicodelia, com visitas ocasionais à realidade, e percebe-se que toda a limpeza e tentativa de elaboração do primeiro momento foi esquecido, dando lugar ao artesanal muito mais interessante. Além da diversão pela desconstrução na trama, é curioso ver a desconstrução da própria estrutura, que mais simples, fica mais sofisticada. E Meredith (Sarah Lind), em suas fantasias de cobras ou brilhos, é grande na representação para Bruce (Josh Ruben), e na outra, enorme para quem está fora da tela.

Entre jogos que sempre funcionam com o espectador, expectativas frustradas, subversões do gênero, uso de figuras mitológicas fortes, uma artesania que sempre vai ser interessante e aquela vingança sempre deseja contra homens imbecis, A Wounded Fawn é um filme que vale ser descoberto. Não é perfeito, tem lá seus problemas, mas eles acabam ficando para trás diante dos riscos, tentativas e dos acertos.

Um grande momento
Sensor de luz

[Tribeca Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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