Crítica | Outras metragens

Os Dias Depois

Irmão/Irmã

(Os Dias Depois, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Thiago Bezerra Benites
  • Roteiro: Thiago Bezerra Benites, Igor Augustho
  • Elenco: Leonarda Glück, Igor Augustho
  • Duração: 21 minutos

Se toda representatividade importa, então ‘Os Dias Depois’ vem somar um novo agrupamento de forças despadronizadas a assaltar o cinema nacional. Em cartaz na Mostra Mirada Paranaense dentro do Olhar de Cinema 2022, o curta-metragem de Thiago Bezerra Benites não aposta no óbvio para conseguir equalizar suas forças. São exemplos de acurado senso familiar, que não estão fechados apenas nos laços de sangue, e que talvez signifique, no futuro, uma apreensão de um conceito múltiplo de congregar afetos. O que salta aos olhos, aqui, é a sua vontade intrínseca de querer comunicar-se com quem ninguém quer comunicação. 

Em cena, dois irmãos precisam se unir se não quiserem perder a herança da mãe, que era afastada deles por características que virão à tona ao longo da produção. Fica muito claro desde o início que o filme tenta elencar surpresas à sua narrativa, que também trariam benefícios à sua construção, por não forçar nenhuma barra nessa direção. O terreno está armado desde o início, porém aos poucos nos inteiramos de cada detalhe de uma situação que nada tem de simples. Não são apenas as questões familiares que eclodem durante o filme, mas ao menos uma das ‘revelações’ é surpreendente não apenas para o espectador, e promove uma reviravolta dentro das relações. 

Estamos falando de uma produção LGBTQIA+ de apenas 20 minutos de duração, e o mérito de conseguir conversar sobre tantas coisas é do seu autor. Quando cito conversas, é no que o filme têm de cinematográfico mesmo, em como omite esses pequenos detalhes para divulgá-los quando for melhor para seu conceito, em como cada plano é pensado para revelar sobre o casal de atores em cena, em como sua proposta de debate conversa com os seus atores e com a sociedade de hoje, muito mais do que o roteiro diz, mas também isso. Sem esquecer que existe uma história a ser contada, ela precisa ser compreendida e aceita, acima de tudo. 

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‘Os Dias Depois’ não esconde sua vocação naturalista, ao mesmo tempo em que reutiliza esses elementos de esconde-esconde formalista de narração para reforçar suas natureza de cinema, ao largo das tentativas de parecer sensível e carinhoso. Dizendo não à heteronormatividade, o filme busca uma conexão entre os que se reconhecem em lugares de desconstrução. E conclama que muitas vezes a saída não está na compreensão externa, mas no que cada um de nós enxerga para dentro da bolha. Quando as bolhas passarem a conversar mais, se conectarem em suas micro participações e tomarem pra si uma compreensão coletiva, o social passará a ter uma representação nossa, de classe, ainda maior. 

Se em primeiro momento o filme parece não ter tanto adesão assim ao conflito, mostrando um certo artificialismo em um primeiro embate de quase propensão física, em seguida um novo conflito é resolvido de maneira muito crível. O que dá a Benites essa carga forte de mão de diretor, que vemos também na composição de alguns planos, como a da saída da janela pós-festa particular, ou do dia seguinte a essa mesma festa, com a limpeza do apartamento. A fotografia de Rosano Mauro Jr. está em igual valor de qualidade, e ajuda ao filme atingir seu grau de equilíbrio entre o mundano das relações e o que o cinema pode oferecer de melhor ao naturalismo. 

Um grande momento
A discussão por zoom

[11º Olha de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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