Crítica | Festival

Falta Pouco

Pensar o cinema, todos eles

(Falta Pouco, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Wellington Sari
  • Roteiro: Wellington Sari
  • Elenco: Monique Rau, Wellington Sari, Gustavo Piaskoski, Bruna Dal Vesco
  • Duração: 15 minutos

A onda dos ‘desktop movies’ têm produzido materiais de discussão que a narrativa não consegue acompanhar em sua totalidade. São muitos lados de amplitude, que o próprio gesto resolve apreender e demonstrar de maneira sensorial, e que transmitem uma realidade fílmica que responde e remonta diversas novas perguntas: toda imagem é filme? ‘Falta Pouco’ não é um filme de rápida captura, porque está constantemente nascendo novos filmes motivados por aquelas imagens, que nada têm de simples. São exatamente elas as formadoras de uma observação a respeito do que é cinema hoje, motivadas pela necessidade constante que o próprio cinema tem de encarnar em novos moduladores, produzindo em novos formatos debates que dialogam com a própria reinvenção, que não sabemos se mantém ou se reestrutura – provavelmente ambos. 

Partindo de uma ideia direta (a investigação a respeito do desaparecimento de duas holandesas no Panamá), o filme de Wellington Sari – atrás e literalmente na frente das câmeras, sejam elas de quais matizes forem – se bifurca a partir do fluxo de pensamento do hoje, multifocado para a compreensão de diversas conversas que se intercalem e provoquem uma discussão conjunta. Não é apenas algo tão banal quanto “o futuro do cinema” que se materializa a partir do que foi registrado, mas essencialmente onde está o cinema, se ele está em todos os lugares, gestos e capturas. Se a montagem propriamente dita de algo filmado é automaticamente transformado em cinema, se a auto afirmação de sua existência é a porta de entrada para isso, ou se nada disso importa muito, e sim o significado do que cada movimento representa para cada indivíduo na frente de um ato cinematográfico. 

A discussão que empreendem Wellington e Monique, personagens, atiçam a criação de novos dispositivos de arte. São viáveis as tentativas de criação de dramaturgia a partir de imagens prévias, que se sintonizem em um contexto específico e motivacional. São planos cuja motivação parecem ter um único significado, mas cuja edição complexifica o estado de suas próprias intenções. Porque, ao mesmo tempo, essas imagens significam narrativa e caminho narrativo, são elas de uma só vez gesto e proposição do gesto. O roteiro disseca isso, dentro e fora da premissa, de como a imagem cinematográfica pensada externamente já se configura como criação de peça de cinema, a princípio na cabeça do realizador. Então a partir de uma cena de crime, ou da elaboração de um mesmo, relativizar a motivação para o cinema, enfim. 

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Não existem caminhos que não possam ser conjurados a partir da apreensão desse material e da subsequente discussão em relação aos seus dispositivos. Há uma ideia lançada por Sari nas entrelinhas e que, sozinha, já motivaria seu filme e muitos outros: o futuro é ficção. Assim como em ‘Filme Particular’ (texto em breve aqui no Cenas), a fabulação que o indivíduo realiza previamente ao gesto, já é uma conjectura para o gesto. Diante disso, absolutamente todas as imagens produzidas e encadeadas com função discursiva, sejam elas capturadas em uma câmera 4K ou em um celular de 20 anos atrás, constitui a todas experiências de cinema puro, e assim deve ser recebido e analisado. Se isso cabe ao material encontrado em arquivo de 60 anos atrás, não é diferente do que foi produzido no hoje, em um reveillon melancólico prestes a eclodir uma pandemia, um afastamento emocional, uma zona de permissividade criativa para outras esferas, e transformá-las, todas, em pureza gestual de criação. 

Ao fim da jornada, ‘Falta Pouco’ também é um feito do seu tempo ao mergulhar no fato incomensurável de que toda imagem produzida hoje é um ato político por si só. Mediante isso, com o grau máximo de sutileza possível, Sari costura uma beleza de soneto amoroso trágico, interrompido pelas inúmeras tragédias que o nosso tempo nos legou. Uma pandemia, o pior governo da História do País, isso estranhamente se conjectura a imagens cuja potência se ressignificam a partir do que não é compreendido. Aí para frente, novas compreensões e novos gestos, múltiplos significados, remetendo inclusive a uma historiografia do cinema até clássico-narrativo, transformando essas mesmas imagens em catarse. Existirá, afinal, um tempo onde esperaremos o melhor mesmo imersos no pior, do entendimento da natureza mais afável humana em curso – esperar e aguardar o horror, e dentro dele se preparar para o que virá. Tradução de cinema. 

Um grande momento
Não há, pelo indissociável do projeto como um todo

[11º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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