Crítica | Festival

Garotos Ingleses

Fuck U, John Sharp!

(Garotos Ingleses, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Marcus Curvelo
  • Roteiro: Marcus Curvelo, Murilo Sampaio
  • Elenco: Murilo Sampaio, Marcus Curvelo
  • Duração: 15 minutos

Já podemos dizer, nesse momento, que Marcus Curvelo é uma evidente marca do cinema brasileiro contemporâneo. Seu rosto não é apenas o ponto de entrada de uma obra regida por uma quebra de expectativas de padronagem do que seria um corpo aceitável, sob os aspectos mais excludentes possíveis. Curvelo, com sua voz e sua bem-vinda destruição do ‘status quo’, promove uma nova chancela para uma parcela que queira desapropriar normas escrotas e normativas. Não estou falando apenas de aparência física e entrega do material corporal, mas de um combo onde, principalmente, seu devir apresente um aspecto sensorial para questões mais prementes do social. Estamos falando de um artista que literalmente tem o que dizer, e que acima de tudo não tem medo de atirar. Vide ‘Garotos Ingleses’. 

Seu novo curta-metragem, em exibição no Olhar de Cinema 2022, é um compêndio de seu fluxo de ideias criativo e desviado, que engorda sua filmografia com mais uma paulada em cima de situações padronizadas da sociedade que não se entende como separatista. Ao lado do Murilo Sampaio, que vêm se tornando uma constante em sua refrescante obra (atente a ‘A Destruição do Planeta Live’), Curvelo se interessa pelo que ninguém quer falar, apesar da obviedade da urgência no que ele se debruça. Aqui, por exemplo, há a validade inequívoca sobre questionar um cemitério inglês baiano, construído durante o período escravocrata para enterrar cidadãos ligados diretamente ao genocídio negro, como o senhor John Sharp. Condecorado como traficante de escravos, esse assassino está há mais de 200 anos sendo homenageado com uma sepultura em um dos locais mais bonitos da capital. 

Quem lê essa premissa, pode jurar o caminho escolhido por um documentarista para destituir de validade esse horror perpetrado. O que Curvelo e Sampaio fazem é o que sabem fazer de melhor – coloquializar o que a maioria dos outros autores construiria com uma dose de formalidade. O que é um cemitério como esse, se não uma afronta ridícula em qualquer tempo, mas ainda pior nos dias de hoje? Pois bem, em aparente descontração, os autores claramente tiram os estigmas associados ao que seria uma veste séria para colocar o que não presta em seu devido lugar. Sem desprezar o espectador, e sim convidando cada um à sua própria jornada desconstrutiva, os meninos estão realizando um dos cinemas mais inventivos e reflexivos da cena atual. Essa proximidade com a aparência banal não tira a construção da obra, e sim acrescenta substância. E mais uma vez ele se arvora inclusive pelo que está ao nosso alcance, atacando inclusive o cinismo da militância remota e do ódio cego que nasce do rosto não-visto dos avatares, com a mesma urgência.

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Não há desprezo pelo material que está sendo filmado, e sim com o foco específico de sua raiva. Essa mesma raiva não é tratada de maneira pomposa ou ufanista, são apenas novos compartimentos do olhar, um processo contínuo de reconstrução do que é minimamente aceitável na sociedade – aqui, nada é nem minimamente aceitável. Existe humor político que se vende com o descompromisso necessário e acertado, mas dentro dessa estrutura há espaço para duros gestos, como a lágrima que Murilo não consegue derrubar em seu close; ela simplesmente está ali, na clareza do seu olho. Curvelo arma esses jovens dentro de um cenário pandêmico com um sopro de esperança em um futuro que não é apenas social, mas acima de tudo cinematográfico. Sua revoada de jovialidade fílmica oxigena não apenas o seu cinema, que em constante evolução, mas principalmente uma cena viciada de linguagens e acessos. 

‘Garotos Ingleses’ pode não ser visto com a seriedade que deveria, pela tendência de diminuição da crítica e da cinefilia em encarar o que não é circunscrito em densidade e reconfiguração estética. O que não deixa de ser lamentável, porque Curvelo começou uma jornada de exposição em 2017 (necessariamente em ‘Mamata’) sem qualquer aparência de movimento de retração, porque há muito o que ser dito. Ele já bebeu em questões tão sutis de desconstrução psicológica e pessoal, já se aventou pela política de maneira mais explícita, já realizou um longa de efervescência ímpar (‘Eu, Empresa’) e continua, aqui, a surpreender com muita coerência. Seus ‘garotos ingleses’ se comunicam demais com todos os outros meninos que Curvelo costurou até agora, como autor ou ator. Não há nada melhor do que continuar querendo ver a expansão do universo de alguém.

Um grande momento
‘bloody hell’

[11º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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