Crítica | Festival

Mato Seco em Chamas

Molecas revolucionárias

(Mato Seco em Chamas, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Adirley Queirós, Joana Pimenta
  • Roteiro: Adirley Queirós, Joana Pimenta
  • Elenco: Joana Darc Furtado, Lea Alves da Silva, Andreia Vieira, Débora Alencar, Gleide Firmino
  • Duração: 150 minutos

Ao começar um novo texto a respeito de Adirley Queirós, falamos sobre Branco Sai, Preto Fica, ou simplesmente ignoramos que o diretor de um dos melhores e mais importantes filmes brasileiros dos últimos anos está lançando um filme novo? Me debato sobre essa necessidade, então decidi colocar essa frase quase no cabeçalho do texto, e partir para o trabalho propriamente dito a seguir. ‘Porque essa questão deveria influenciar na nova análise’ é uma questão tão ou não importante quanto ‘não deve ser nem um pouco relevante’, e na dúvida, apenas sigo tendo a certeza, mais uma vez, de que o diretor não estava por um acaso atrás dessas câmeras. O que acontece em Mato Seco em Chamas não pode ser reproduzido normalmente, ao mesmo tempo que não há como ignorar quem é hoje esse cineasta para o recorte de nosso tempo. 

Mais uma vez filmando os arredores de Brasília, trabalhando com a parte baixa do Distrito Federal, dessa vez Queirós tem o acréscimo de Joana Pimenta ao seu lado, co-dirigindo um filme que não poderia ter um acerto mais justo. Mato Seco em Chamas é quase exclusivamente um filme de toada feminina, tendo em vista que suas três protagonistas são mulheres, que o universo em que elas giram sempre cercam o feminino de alguma forma, e que essas três personagens exalam empoderamento em graus quase inatingíveis dentro do que foi lançado no cinema brasileiro. Nem é o caso de diminuir a representatividade alheia, mas de exacerbar o que acontece aqui, que impressiona pela sua entrega a uma ideia que não está e nem precisa ser verbalizada. Trata-se de um trabalho de energia audiovisual incomparável, por isso o diálogo não vem rápido, nem fácil; o som e a imagem (e a fúria e a paixão) regem o espetáculo.

Mato Seco em Chamas
Cortesia Festival do Rio

Suas três protagonistas, Andreia, Chitara e Lea, são figuras periféricas de uma comunidade da Ceilândia, que foram pescadas por Queirós e Pimenta para estar em cena, desenvolver sua narrativa fictícia e ainda recriar, na frente das câmeras, o entorno da produção com sua própria existência. Esse é o lugar de registro “tradicional” do diretor, que sempre entrelaça em suas narrativas costuras do fantástico e do naturalista, criando híbridos que explodem na tela. Mato Seco em Chamas é um representante justo de sua filmografia, que graças a intervenção de Pimenta, ganha uma reverberação extra que vai além dos códigos que ele já estabeleceu antes. Conseguimos com alguma certeza afirmar que o diretor ganha com a parceria, pois esse lugar de seu filme novo é de um ineditismo que é possível graças a chegada de sua co-diretora.

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Esse olhar para um lugar de abrangência de gênero faz, em alguns momentos, Mato Seco em Chamas ser paralelizado a Baronesa, de Juliana Antunes, mas o que Queirós e Pimenta apresentam tem ambições maiores, porque mais uma vez o diretor entrega um cinema político por excelência, sem jamais percorrer o cinema de gênero. É uma constelação de possibilidades com amálgama único, raras vezes acessado em tantos pontos, que convergem em um resultado que não tem similar, com tantas nuances apresentadas. Estamos diante de uma peça documental, que também é um profundo petardo feminista, que também é uma alegoria futurista, que também é uma flechada no governo de extrema-direita, que também é uma ode a sororidade e ao afeto. Em duas horas e meia, todas essas colocações estão disponibilizadas à apreciação, sem nunca ser exclusivamente um filme narrativo. 

Mato Seco em Chamas
Cortesia Festival do Rio

Tudo que está em cena é uma máquina de reprodução de imagens, que se entende potente estritamente por essa produção de conteúdo visual. Depois da metade da produção, quando o tapete narrativo começa a se tornar mais relevante, o filme enfim engrandece o que já não era leviano. Poucos hoje no país conseguem traduzir um estado de espírito, um tempo e uma carga emocional sem palavras quanto o cinema de Adirley Queirós, o que Joana Pimenta trás a esse diretor é a possibilidade de ainda assim não esquecer do carinho que podem ser provenientes dessas mesmas imagens, sem jamais perder impacto; talvez até potencializando. Ao lado dos eventos nos quais as protagonistas estão envolvidas, seja na prospecção de petróleo, seja na campanha política, seja no cárcere, o que está sendo colocado em prática é a capacidade que essas três mulheres têm para conseguir fixar suas metas profissionais e/ou emocionais, e elevá-las a um novo conceito de realização. 

Mato Seco em Chamas, afinal, é um filme brasileiro. Para o nosso povo, serão sempre dois passos para frente e um para trás, o que representa que os lugares de elevação que suas personagens alcancem, a preparação para o retrocesso nunca pode cessar. Essa é mais uma das certezas que esse filme começa a conjecturar: não deve haver sossego para quem está na base da pirâmide, não há paz reservada para nós. Com uma fotografia embasbacante da própria Pimenta e a costumeira montagem excepcional de Cristina Amaral, que congrega todo o muito que é filmado, visto e proposto aqui, o que é conseguido em cena é parte de um somatório não apenas de esforços e gêneros cinematográficos, mas uma refrescante renovação temática em cima de um cineasta que anteviu uma estagnação que ainda estava longe de acontecer. Ao lado de Pimenta, Queirós toca o sublime com sua saga de “gasolineiras” em um desértico e fascinante cenário. 

Um grande momento
O diálogo entre as irmãs se transforma em cerco

[Festival do Rio 2022]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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