[box](Baronesa, BRA, 2017)
Híbrido
Direção: Juliana Antunes
Roteiro: Juliana Antunes, Andreia Pereira de Sousa, Leidiane Ferreira
Duração: 75 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆[/box]

Nada​ ​se​ ​conhecia​ ​sobre​ ​o​ ​filme​ ​mineiro​ ​que​ ​abriu​ ​a​ ​Mostra​ ​Aurora​ ​esse​ ​ano, pois, diferente​ ​do habitual,​ ​a diretora​ ​Juliana​ Antunes​ ​não​ ​tinha​ ​nem​ ​mesmo​ ​um​ ​curta-metragem​ ​anterior em​ ​sua​ ​filmografia. Baronesa​ ​chega,​ ​então,​ ​com​ ​uma​ ​força​ ​muito​ ​maior,​ ​impressionando​ ​pela​ ​qualidade​ ​técnica e​ ​pela história​ ​contada.

O​ ​documentário​ ​acompanha​ ​o​ ​cotidiano​ ​de​ ​Andreia​ ​e​ ​Leidiane,​ ​moradoras​ ​do​ ​Jardim Juliana,​ ​bairro​ ​da periferia​ ​de​ ​Belo​ ​Horizonte.​ ​As​ ​amigas​ ​têm​ ​personalidades​ ​muito​ ​distintas, mas​ ​complementares​, ​e​ ​estão prestes​ ​a​ ​se​ ​separar.​ ​A​ ​inquietude​ ​de​ ​Andreia​ ​a​ ​faz​ ​querer sair​ ​de​ ​Juliana​ ​e​ ​construir​ ​uma​ ​casa​ ​num terreno​ ​invadido​ ​no​ ​bairro fictício​ ​Baronesa,​ ​enquanto Leidi​ ​não​ ​vê​ ​problema​ ​em​ ​ficar.

A​ ​intimidade​ ​criada​ ​entre​ ​Juliana​ ​e​ ​sua​ ​equipe​ ​com​ ​todos os​ ​personagens do filme é o principal trunfo do filme. É com isso que ela e, principalmente, sua diretora de fotografia conseguem se invisibilizar no ambiente, mesmo que não haja tanto espaço físico, mesmo que se trabalhe com crianças pequenas. A impressão é a de que para aquelas pessoas não há uma câmera por perto.

Neste ponto está a principal armadilha de Baronesa. Essa relação com a diretora e o modo íntimo com que a história é contada acabam expondo os documentados além do que eles poderiam perceber. Há cenas, como a do acontecimento com a criança, que expõem pessoas que sequer sabem que estão sendo expostas, mesmo que com o consentimento dos responsáveis legais.

Superada a questão, que é grave, o filme faz um retrato muito verdadeiro e particular de uma realidade que está longe de ser a das pessoas que o assistiram em Tiradentes, o que fez com que outros julgamentos surgissem, justamente pela dificuldade em se olhar para aquilo que é diferente. E, por mais que se diga que é um cotidiano muito conhecido, por outros filmes ou reportagens sobre a periferia, nunca se esteve imerso naquela realidade daquele modo.

Ao mesmo tempo, brincadeiras, relacionamentos, distrações e conversas não experimentadas mesclam-se a sentimentos e sensações que são comuns a todos os seres humanos. E assim constrói-se essa realidade tão distante, mas ao mesmo tempo tão próxima.

Baronesa é um filme de guerra em que o conflito não é retratado, pelo menos não sempre, e que volta suas lentes para as mulheres seguem suas vidas em um ambiente ausente de homens, pois eles estão encarcerados ou mortos. Embora peque em alguns pontos, tem uma potência e um significado que transcendem até mesmo o próprio filme.

Um registro de mulheres por mulheres, que fala do que é comum e do que é diferente. E não vai ser fácil pra ninguém lidar com isso.

Um Grande Momento:
Construção.

[20ª Mostra de Cinema de Tiradentes]