Crítica | Festival

Employee of the Month

Realidade antiquada

(L'employée du mois, BEL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Véronique Jadin
  • Roteiro: Véronique Jadin, Nina Vanspranghe
  • Elenco: Jasmina Douieb, Laetitia Mampaka, Peter Van den Begin, Philippe Résimont, Laurence Bibot, Alex Vizorek, Achille Ridolfi, Thomas Ancora, Ingrid Heiderscheidt, Christophe Bourdon
  • Duração: 78 minutos

Em cima da mesa do chefe está uma caneca que representa bem o sentimento que nos acompanha pelos primeiros momentos de Employee of the Month (L’employée du mois). Ela diz “World’s Best Boss”, igual a de Michel Scott em The Office. Algo é diferente naquele escritório de uma fábrica de produtos de limpeza, mas muito da alma vem do show de TV, ou traz o mesmo passado já representado e, na verdade, nunca superado. Espaços de burocracia, machismo e qualquer outro retrocesso que, haja o avanço que houver, se mantêm ao longo do tempo.

É curioso que seja uma empresa de produtos de limpeza, com nome que exalta a ecologia. Algo que nunca deixará de ser atual, necessário, e está tão presente em nossas vidas e, agora, com a pandemia da Covid-19 ganhou uma nova relevância e passou a ser ainda mais discutido e conhecido por todos. É uma atualidade que contrasta com tudo em cena, de divisórias a luminárias, vestimentas ao comportamento. Pilhas de papéis e piadinhas misóginas estão espalhadas por todo canto, nada parece ser dos dias de hoje a não ser Melody (Laetitia Mampaka), a nova estagiária.

Descrente e enojada com o que está vendo, ela prefere se isolar e esperar o dia acabar — Employee of the Month tem essa determinação temporal — e passa a ser uma companheira do espectador na observação daquelas dinâmicas e espaços, pelo menos até determinado ponto, quando precisa intervir em uma situação pontual e o estabelecido começa a se transformar. Mas o centro da ação é Inès, a funcionária esquecida por 17 anos no espaço, alvo de comentários e nunca digna de atenção. Vivida por Jasmina Douieb, de La Trève, ela é o retrato da mulher no universo corporativo, com o salário inferior e funções socialmente pré-estabelecidas. Nada nem um pouco diferente do que estamos acostumados a ver por aí.

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Apostando no humor, incômodo e nem sempre correto, a diretora Véronique Jadin busca sempre essa proximidade com a realidade e funciona dentro de suas intenções, ainda que tenha seus problemas com o ritmo e não se acerte muito com o prolongamento de algumas sequências. Algumas passagens, como a perseguição no almoxarifado, por exemplo, podem ser excessivamente gratuitas, forçando uma graça que nem sempre é eficiente, mas são compensadas por momentos como o salvamento de Melody, carregado de uma justiça histórica que todos estavam esperando diga-se de passagem.

Quando assume a forma de filme onde consequências sequenciais a más escolhas guiam todas as ações e novos resultaos, o longa se afasta daquilo que era muito conhecido e encontra seu próprio espaço e identidade, ainda que não consiga se equilibrar. Assim, Employee of the Month segue irregular, mas é contextualmente relevante em um mundo que a despeito de todas as mudanças insiste em manter estruturas que não fazem mais sentido algum. E ainda faz rir, comprindo o seu papel de peça de entretenimento.

Um grande momento
Enfeite na cabeça

[Tribeca Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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