Crítica | Festival

Alan

Sem cabresto

(Alan, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Diego Lisboa, Daniel Lisboa
  • Roteiro: Diego Lisboa, Daniel Lisboa
  • Duração: 92 minutos

Alan:

Não há como negar a força da presença de Alan do Rap, e não estou falando necessariamente do personagem de um filme para o seu próprio filme. Figura mítica da cena musical rapper de Salvador, há duas décadas esse cara invadia palcos para divulgar sua arte e assim, não apenas conseguir espaço e atenção, como também dar rosto à sua voz. Alan era um artista que, vindo do gueto, das periferias, do olho do furacão que ele denunciava, sabia como ninguém do que falava suas letras, extremamente pessoais e, ao mesmo tempo, universais para seu segmento. ‘Alan’, que passou como um tsunami pelo Olhar de Cinema 2022, tenta capturar essa força e esse carisma para dentro de si, através de um olhar comprometido por estar tão próximo ao homenageado. De alguma forma, o que não costuma acontecer, aqui aconteceu, e o filme tem uma visão múltipla sobre um homem que vendia muitas contradições, ou seja, um ser humano. 

Os irmãos Diego e Daniel Lisboa não são apenas os diretores do documentário, eles fizeram parte da vida de Alan. Muito jovem, Diego o conheceu e o filma desde então, tentando sempre fazer um panorama de um cara tão especial quanto idiossincrático. Juntos na paixão pelo rap, chegaram a formar uma dupla na cena baiana e isso os uniu ainda mais. Se o filme não consegue (e nem sempre tenta) ter uma visão isenta dos fatos, também não tenta fingir que o fará; sem passar a mão na cabeça de seu personagem, o filme almeja desvendar um cara cheio de camadas, e nem todas compreensíveis. A intenção não é traçar um paralelo de si com o ritmo, ou com a marginalidade com a qual esteve envolvido de maneira irremediável. ‘Alan’ é quase uma força bruta que invade os espaços como seu protagonista, sem pedir licença e sem esperar uma simpatia inicial. 

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Essa verdade que o filme mune do seu universo, especificamente do cara que busca por mais de uma hora, é a força motriz do projeto, errático como o próprio Alan. Talvez, no entanto, não exista maneira mais autêntica de jogar luz sobre esse personagem que, infelizmente, continua bradando muitos anos de passar por aqui. Porque seu grito ecoa muitas outras vidas em situação semelhante: quando não há oportunidade para o único meio que você conseguiu inserir, não há muitas alternativas que não roubar a atenção, de maneira literal. De personalidade invasiva, Alan não pedia licença por saber que não dariam; tal como a música de seu conterrâneo Raul Seixas, ele era a mosca disposta a pousar em todas as sopas possíveis. Os irmãos Lisboa entendem muito bem essa perspectiva por estarem tão próximos a ele, e não fazem outra coisa a não ser tentar absorver essa pulsão. 

Exatamente como nos melhores projetos da categoria, estar intimamente ligado ao material produzido tem prós e contras. O lado positivo está descrito, a força descomunal de Alan é lida com muita intensidade, sem jamais deixar de apontar seus defeitos – que ele mesmo assumia. No caminho para essa investigação, a fala de Mano Brown, embora acertada e veemente, não produz exatamente simpatia por sua figura, em um dos momentos mais acalorados do filme. Já o lado negativo está nessa adesão tão evidente (e não tinha como ser diferente, é absolutamente compreensível) é o material soar solene vez por outra, com tentativas de criar uma aura de tensão na produção que não é pontual, mas frequente. Isso joga o filme em uma espiral estranha de suspense frequente, como se os diretores esquecessem, por frações, da magnitude de seu personagem, e precisassem recorrer a estratagemas formais desnecessárias.

‘Alan’, o filme, apesar de suas escorregadas narrativas, tem a qualidade inegável de compreender seu biografado, situá-lo em ambiente reconhecível, não descaracterizá-lo e ainda puxar sua orelha, vez por outra. O que torna seus deslizes ainda menos importantes é o fato de que uma pessoa real está em cena o tempo inteiro, sem máscara e carregando o pulmão para apontar o que está errado. Mesmo que não tenha conseguido escapar do que via como inevitável, sua voz ressoou sempre verdadeira na hora de demonstrar o quanto a periferia não tem vez mesmo em uma cena periférica, o quanto seguem sendo mortos pessoas como ele, e como o sistema privilegia a aparência e até um certo bom mocismo vigente, ou pelo menos enquadrar suas características mais agudas. Às vezes basta ser branco, nem precisa ser exatamente bem nascido… mas os animais domados não costumam ser tão frondosos. 

Nota: 3.5

Um grande momento
O abraço na equipe

[11º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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