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Fire Island

Como é bom se ver

(Fire Island, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, romance
  • Direção: Andrew Ahn
  • Roteiro: Joel Kim Booster
  • Elenco: Joel Kim Booster, Bowen Yang, Conrad Ricamora, Margaret Cho, Tomas Matos, Matt Rogers, Torian Miller, James Scully, Zane Phillips, Nick Adams, Michael Graceffa, Aidan Wharton, Peppermint
  • Duração: 105 minutos

Jane Austen realmente já rendeu de tudo. ‘As Patricinhas de Beverly Hills’, ‘Orgulho, Preconceito e Zumbis’, ‘Noiva e Preconceito’ estão ao lado de clássicas adaptações de ‘Emma’, ‘Razão e Sensibilidade’, ‘Persuasão’ e tantos outros, em um looping sem fim de tentativas de olhar para a clássica autora britânica e descobrir novos públicos, sempre diversificando seu séquito de fãs. Estreou no Star+ uma nova versão então de um de seus maiores títulos, ‘Orgulho e Preconceito’, aquela história já protagonizada por Keira Knightley e Greer Garson sobre a saga dos Bennett, mais especificamente de Elizabeth, a jovem que decide ser a última a casar entre suas irmãs, mas no caminho não se percebe enamorada do irresistível Senhor Darcy. Elizabeth, dessa vez, é interpretada por… Joel Kim Booster? 

‘Fire Island’, esclareço, é uma versão LGBTQIA+ do clássico romance publicado em 1813, e tratava, em paralelo aos romances (nada) edulcorados do período, da luta de classes entre castas de uma injusta pirâmide econômica a reger a Inglaterra durante muitos séculos – e nem sei dizer se muita coisa mudou, hoje. Esse era um tema caro a Austen, sempre preocupada em devassar a hipocrisia de uma sociedade que já lhe parecia arcaica há 200 anos atrás, e ela escreveu sobre essa duelo de poder na maior parte de seus livros, sempre de maneira crítica e mordaz. Antes que alguém se pergunte, sim, essa questão é muito importante na versão que o jovem sul-coreano não apenas protagoniza como também escreve, e que recebe um tratamento muito especial das mãos de Andrew Ahn, o mais que sensível responsável por ‘Spa Night’. 

Fire Island
Jeong Park/20th Century Studios

O filme não é um manifesto panfletário, a despeito de um protagonismo asiático e periférico muito evidente, com personagens fora dos padrões na linha de frente da produção espelhando as verdades que uma fatia bem relevante do público prefere não saber da existência. Ou realiza isso da forma mais inventiva possível, deixando seus rostos, corpos, vozes e vivências ganharem vida na tela, sem gritos de ordem – os gritos são suas próprias existências. Como homem gay afeminado que ainda hoje serve de esparro para homofóbicos baterem com certa constância, ainda que vivendo uma realidade de privilégios que não é unificada, ‘Fire Island’ é um dos acontecimentos de 2022. Enxergar a beleza de corpos fora dos padrões, de cores estigmatizadas, de entender que esses mesmos espaços de branquitude e padronagem precisam ser ocupados pela marginalidade dos movimentos é um entendimento muito pessoal e verdadeiramente emocionante, porque precisamos cada vez mais de exemplos longe da vigência normativa.

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Não faria sentido utilizar um texto de Austen hoje, se não fosse para espelhar um estado do que vivemos hoje, e o entendimento de que poderíamos falar de uma “minoria” tão ainda massacrada por assassinatos e preconceitos (incluindo internos) é uma chave poderosa dessa versão. Independente de estar em posição de compreensão absoluta daquele universo, não é justo exaltar apenas o que ‘Fire Island’ faz pela cena cinematográfica gay hoje, muito mais representada por exemplos de potência dramática urgente do que de uma leveza relevante. Há muita verdade no que é impresso em tela, uma tônica potente sobre o que é ser gay e pobre hoje, compreendendo que o mundo homossexual é repleto de possibilidades só dadas ao topo da pirâmide. Não tenho o lugar de fala pra dizer se no ambiente heterossexual o status é tão cobrado quanto entre nós, mas creio que não. 

E é interessante que o filme perceba que aquelas pessoas não são miseráveis, isso é verbalizado logo no início. Não estamos diante de uma periferia em grau extremo como vivenciado em ‘Sessão Bruta’, mas de um grupo de homens jovens que têm acesso ao que de melhor pode ser usufruído ao alcance de nossas mãos, só que não é pra gente – estamos em outro círculo social, e os de cima oprimem, humilham, diminuem e cerceiam a nós. É um extrato social dos ‘quase’, aqueles que sentem o cheiro do perfume mas raramente terão a condição de comprá-lo. Enxergar o que Jane Austen escreveu durante toda a sua vida, sua crítica corrosiva a esse padrão dolorido, é uma sacada invejável do projeto, que faz a transposição mais que adequada de uma realidade que não é destinada a todos, a não ser que você esteja no espaço apenas para ser tratado com condescendência e paternalismo.  

Fire Island
Jeong Park/20th Century Studios

Toda a construção do que já conhecemos do romance entre Elizabeth e o senhor Darcy (aqui, Noah e Will) é refeita com carinho aos fãs de uma autora que tem entrada garantida dentro do universo ‘queer’. Estão lá a fagulha romântica dos protagonistas em meio ao temporal, a carta que coloca ainda mais fogo na visão que o personagem central têm de um tipo de origem duvidosa – e a incursão do elemento escrito em tempos de smartphone é nunca menos que deliciosa; enfim, além do que traz de poderoso para o contemporâneo, ‘Fire Island’ não se descola de suas raízes, ao invés disso as absorve com entusiasmo. É uma adaptação de um romance na acepção mais literal do termo, e uma daquelas muito acertadas pela forma como não apenas transpõe os elementos da obra original para outra mídia, como na modernização de tudo que está sendo discutido. É uma compreensão absurdamente condizente de enxergar em como esse mundo registrado para o filme é uma versão muito real do que Austen enxergou, em outros círculos, há séculos.

O elenco, pra coroar, vai além da diversidade; é o que deveria ser, multitalentoso. A química entre Booster e Bowen Yang é de uma verdade incontestável, assim como a irmandade entre eles Tomas Matos, Matt Rogers e Torian Miller, com Margaret Cho como a cereja do bolo. Assim como em qualquer versão de ‘Orgulho e Preconceito’, Elizabeth e senhor Darcy têm crescente e ampla torcida do público, o que Booster e Conrad Ricamora entregam em cena é nunca menos do que o retrato de um sentimento verdadeiro prestes a vir à tona. Cada um em cena vende exatamente o necessário para que um projeto tão poderoso como ‘Fire Island’ tenha a força que deve ter em exatidão. Que o filme além de tudo ainda seja bonito graficamente, é um plus de consagração a um filme que merece reconhecimento e publicidade muito além do que vêm recebendo. 

Um grande momento
O primeiro diálogo particular entre Noah e Howie, assim que chegam

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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