Crítica | Streaming

Até o Fim

Frustrando expectativas

(South of Heaven, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Aharon Keshales
  • Roteiro: Aharon Keshales, Navot Papushado, Kai Mark
  • Elenco: Jason Sudeikis, Evangeline Lilly, Mike Colter, Shea Whigham, Jeremy Bobb, Amaury Nolasco, Thaddeus J. Mixson, Michael Paré, Jaime Zevallos
  • Duração: 120 minutos

A gente pode partir pelo título, Até o Fim, mesmo que ele seja uma má escolha brasileira, já que o original South of Heaven, expressão usada para definir o inferno, é muito mais fidedigna. Depois dele, seguir pelo discurso de abertura do filme, feito pelo prisioneiro Jimmy Rae à juíza, contando sua situação: precisa sair porque o amor de sua vida está com câncer terminal e só tem mais um ano de vida e uma morte certa e dolorosa pela frente. Bom, temos a ideia certa do melodrama rasgado que vamos ver, basta apertar o botão do pause e levantar do sofá pegar pegar os lencinhos. Aí vem um novo personagem, e outro, e mais outro e o tal lencinho vai ficar ali intocado, porque não era sobre isso.

Dirigido por Aharon Keshales, com roteiro assinado por ele, Navot Papushado e Kai Mark, o longa vai desenvolvendo sua trama nesse jogo de construir e quebrar expectativas. O drama apresentado na corte de julgamento e verdadeiramente sentido por Jimmy não vai só ser sublimado pela positividade e delicadeza de Annie, a futura esposa, à espera de eventos lógicos para aquela realidade. Não há tempo e nem interesse real de se chegar a esse ponto dramático, na verdade. Há pouco espaço, inclusive, para se apegar ao casal principal, vivido por Jason Sudeikis (Ted Lasso) e Evangeline Lilly (Lost), o que acaba se tornando uma grande questão do filme.

Com sua motivação principal não tão forte assim, uma segunda linha se estabelece: será que Jimmy vai conseguir se manter íntegro como prometera? Não que não funcione, e até divirta, mas o caráter esquético fica evidente. É o amigo que surge no carro com um convite dúbio, o agente da condicional e seus negócios, o chefão do crime e sua encomenda perdida, e até o refém de pouca idade, personagens muito aleatórios que se sucedem com a intenção de forçar o protagonista a se posicionar na história, numa costura que gera entretenimento, mas sem que se estabeleça envolvimento de verdade com sua pessoa. 

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E é algo generalizado. Com apresentações de background apressadas feitas em diálogos, por vezes até aleatórios, “queria se provar para o meu pai” ou “a mãe dele fumava muito”, narrativamente, falta peso a cada um daqueles que desfilam em tela, muito além de Jimmy. Isso leva a falhas na interpretação, mas esse é um dos casos em que não se pode exigir muito dos atores já que, independente de suas qualidades, têm tão pouco sobre o que trabalhar. Sobra, então, forçar no humor e na ação. Nada que tenha muito jeito, pois a sensação é a de que sempre tem alguma coisa faltando em Até o Fim.

Sudeikis, que é um ótimo humorista, está travado nessa figura que não se define entre o bom moço que se desviou do caminho e agora, depois de outra besteira (aliás, precisamos falar sobre o risco de ser atropelado nos EUA, porque se for como nos filmes…), precisa ser durão novamente ou o badass de mente sagaz e espírito fora da lei que está só voltando à velha forma. Simplesmente, a coisa não funciona ali. A gente vai rir algumas vezes, pode até se angustiar em outras, mas não vai comprar quase nada daquilo. Quase nada porque existe Thaddeus J. Mixson e seu mimado e insuportável Tommy Price, num momento de interação que tem um peso quase real.

Até o Fim é um filme indeciso e que, por mais que entretenha ali naqueles minutos, não esconde todos os problemas que o tornam oco. Está tão empenhado em seu objetivo de frustrar recorrentemente as expectativas do espectador com sua história cheia de reviravoltas, que frustra até o que esperava para si mesmo:  é um drama abandonado de cara, e isso é bom, mas nunca chega nem perto de ser o filme de ação que achou que poderia.

Um grande momento
Amendoim

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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