Crítica | Streaming

Athena

(Athena, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Romain Gavras
  • Roteiro: Elias Belkeddar, Romain Gavras, Ladj Ly
  • Elenco: Dali Benssalah, Sami Slimane, Anthony Bajon, Ouassini Embarek, Alexis Manenti, Birane Ba
  • Duração: 99 minutos

A xenofobia e o racismo que assolam a França não são novidade no cinema. Com obras ficcionais que retratam a exclusão social, que aparta cidadãos em espaços deslocados de Paris, como Edifício Gagarine, ou ainda mais distantes, como Os Miseráveis, a setima arte explora a postura desumana de órgãos estatais e da parte da comunidade que aderiu aos discursos excludentes que andam ganhando cada vez mais força nos últimos anos. Indo do descaso à violência, como nos exemplos citados, respectivamente, em seu caráter de denúncia, é um cinema que tem muito a dizer. Mais próximo do segundo longa, inclusive roteirizado pelo diretor dele, Ladj Ly, Athena, longa da Netflix, está entre esses filmes.

O título se refere a um enorme complexo habitacional onde mais um cidadão francês de origem argelina, um garoto de 13 anos, é espancado e deixado para morrer, ao que tudo indica, por policiais. Sem muito tempo para a contextualização ou ambientação, as únicas informações que chegam com calma ao espectador são as dadas diante da delegacia de polícia, até sua invasão. Daí em diante, o filme assume o ritmo frenético e segue o fluxo das ações do grupo de rebeldes em um confronto intenso com as forças armadas. Em longos planos, acompanhamos a tomada dos espaços e os combates, muitas vezes alternando entre protagonistas que literalmente seguimos naquela realidade. 

Eles são Karim, Moktar e Abdel, os três irmãos do adolescente morto. Cada um com uma maneira de lidar com o ocorrido e, de certo modo, um jeito de se relacionar com o Estado, aquilo que este oferece e o lugar que nele ocupam. O diretor Romain Gravas, em roteiro assinado por ele mesmo, Ly e Elias Belkeddar, encaixa o drama pessoal, familiar e social em sua ação quase sem pausas. Nesse compasso, acerta ao dar espaço a alguns conflitos; faz boas interações com elementos relevantes que trazem pontos-chaves, como a religião ou a relação materna; mas se perde em outros, com personagens aleatórios de função específica e nem sempre tão necessários.

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Além disso, a opção pelo ritmo intenso, sempre tão frenético e incansável, é ousada e impressionante, mas acaba atingindo um ponto de extenuação. Ainda que tenha elementos que tornem a agitar quem assiste a Athena, o vigor vai se perdendo ao longo do filme, e não apenas porque a primeira sequência é intensa demais, mas porque o filme inteiro quer estar nessa alta voltagem. Não há um trabalho muito eficiente com as pausas, os respiros, e nem uma consciência com a adrenalina, com muitas das passagens restringindo-se ao gráfico, quando a tensão deixa de ser apenas um efeito. 

E eis que surge, então, a maior das questões do longa: seu caráter político e de denúncia se vê reduzido à plasticidade estética. Há aquilo que impressiona, que movimenta, que faz prender a respiração, mas a mensagem, aquela que estava ali nos primeiros momentos e é a causa de tudo – inclusive do filme – se perde. Mesmo que Karim brade o seu desejo, o interesse é desviado para outros eventos, e demora até que o foco seja retomado. Se por um lado isso é um problema, porém, há algo que afasta o filme da exploração da miséria, o que Os Miseráveis fazia de maneira execrável. Seria melhor um meio termo, mas ainda é mais interessante ver a ação tomar temporariamente o lugar da denúncia do que o fetiche da mazela estetizada.

Imperfeito na hora de cumprir sua intenção, Athena é um filme de ação potente, que supera outros títulos não só por tratar de temas que são muito mais complexos e profundos, mas por optar por fazê-lo de uma maneira ousada e por sua habilidade técnica. Há elaboração e a risco, e, por bastante tempo, as coisas saem como deveriam. Pena que sua vontade de impressionar sempre mais o devie, mas nada consegue esvaziar a crueldade que hoje é real e precisa ser, cada vez mais, explicitada. O mal ainda está ali representado.

Um grande momento
A invasão da delegacia

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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