Crítica | CinemaDestaque

Amsterdam

Sem qualquer finalidade

(Amsterdam, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Direção: David O. Russell
  • Roteiro: David O. Russell
  • Elenco: Christian Bale, Margot Robbie, John David Washignton, Robert DeNiro, Rami Malek, Anya Taylor-Joy, Andrea Riseborough, Chris Rock, Mike Myers, Michael Shannon, Zoe Saldana, Timothy Olyphant, Matthias Schonaerts, Alessandro Nivola, Taylor Swift
  • Duração: 135 minutos

A relação da cinefilia com o diretor David O. Russell vem sofrendo mutações ao longo dos anos, e essa construção é motivada pela carreira do próprio diretor, que jamais pode ser chamado de regular.  Em seus melhores momentos (Três Reis e Procurando Encrenca, por exemplo), não tinha muita popularidade envolvida; quando enfim chegou a aproximação do sucesso (O Lado Bom da Vida e O Vencedor, por exemplo), e o homem foi multiplamente indicado a muitos prêmios durante quatro anos, ficou claro como estava indo em uma direção perigosa. Filhote de Harvey Weinstein por dois filmes, exatamente os que deram a ele a visibilidade global, soava como pau mandado; quando tentou ter voz própria (Trapaça e Joy), o resultado mostrou que ele se atrapalha muito com suas ideias. Essa nova estreia, Amsterdam, é o resultado de anos confusos dentro da indústria. 

Para onde olhamos, o filme parece não ter dado certo. Porque nada do pretendido chega minimamente a fazer sentido, em seus resultados. O que se pretendia com Amsterdam? Fazer uma homenagem ou um pastiche ao cinema noir? Porque metade de Hollywood foi escalada para o filme, se nenhum dos atores parece ter material para trabalhar? Se a equipe técnica é da categoria “o melhor que o dinheiro pode comprar”, porque o trabalho de ninguém é valorizado? Porque a diversão mostrada no filme não parece verdadeira, e sim que os atores estão se esforçando para soar em um estado de espírito que não é perceptível nem com lupa? Como a maior parte de sua carreira nos últimos 12 anos, O. Russell parece estar vendendo um produto, muito mais do que realizando um filme. 

Amsterdam
20th Century Studios

Para o que vemos em cena, os 55 milhões parecem até econômicos, mas quando adentramos o material final, e vemos a falta de acuracidade para destrinchar seus detalhes, temos um filme oco, inclusive de beleza estética. Um dos maiores nomes do figurino ainda vivo, Albert Wolsky, prestes a completar 92 anos e com dois Oscars em casa (All That Jazz e Bugsy), confeccionou peças de muito bom gosto… e que não vemos em detalhe. Emmanuel Lubezki, gênio que venceu três Oscars consecutivos (Gravidade, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) e O Regresso), está em cena a serviço do nada; seu trabalho nunca é valorizado. É um acúmulo de desacontecimentos em sequência, um filme que não tem a graça que imagina ter, nem o frescor que deveria ter. Por mais de 2 h, nos perguntamos o que fazemos dentro da sala de cinema. 

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Seria então Amsterdam o pior filme de David O. Russell? Não – Joy é imbatível. Mas talvez possamos dizer que esse é o projeto dele que mais poderia ter rendido o filme que almeja fazer há muito anos. Não tem como passar pela produção e não sentir pena, por ele e por todos os envolvidos. Mas nada em cena nos remete a um ponto de justificativa, ou a um desenvolvimento condizente à ambição. É sobre uma dupla de amigos acusada de um crime que não cometeu, que recorda o nascimento dessa relação durante a Primeira Guerra Mundial e seu envolvimento conjunto com uma enfermeira com segredos debaixo do tapete. A história de amor e parceria entre esses três personagens poderia render um filme “menor”, menos rebuscado, concentrado nas relações humanas e refém delas. Ao invés disso, virou uma intrincada rede de conspirações e intrigas para impedir a ascensão do nazi-fascismo nos EUA – dos pouco pontos positivos, saber que os planos dos protagonistas só deram certo na ação que concerne a eles, é sim uma sacada bacana, ainda que absolutamente terrível. 

Amsterdam
20th Century Studios

No entanto, é pouco para nos importarmos com Amsterdam, um filme que nasce com propósitos truncados. Tal qual produtos feitos para o Oscar (sim, a vida de O. Russell gira em torno de ganhar esse raio desse boneco) esquecidos antes mesmo de chegar, o filme se prepara para ter o mesmo destino de coisas como O Mordomo da Casa Branca e Respect, produzidos com uma finalidade não alcançada, e por isso, inócuos e sem lugar no mundo. Não há textura o suficiente para que ele sobreviva na memória, e sua presunção engraçadinha de ser ‘cool’ e ‘sagaz’ não sobrevive à sessão. Como já dito, fica no ar a sensação de que a história, simplificada, entre a amizade de Christian Bale, Margot Robbie e John David Washington era o que poderia elevá-lo; ao exceder suas possibilidades, o filme se torna uma vitrine entupida de elementos e ao mesmo tempo vazia. 

E qual não é o desespero ao ver o filme chegar no clímax, uma reunião/festa de teor político onde tudo será desmascarado, e observar que um dos grandes problemas do filme está nas mãos de Jay Cassidy? O montador indicado ao Oscar deixa Amsterdam correr solto, com cenas muito longas sem acréscimo narrativo, e esse desfecho é verdadeiramente um teste de paciência. Nada tem muita substância para que se torne exaustivo, e o ritmo do filme é constantemente posto à prova, sem sobreviver. Está no trabalho desastrado da montagem um dos motivos que mostram a auto indulgência de Amsterdam e de seu diretor, que vai continuar na tentativa de encontrar seu lugar no mundo hollywoodiano; a julgar por suas reações infantis a cada derrota, torço para que seu check-up esteja em dia. 

Um grande momento
Tirando os estilhaços dos amigos 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Ferruccio
Ferruccio
12/11/2022 04:32

Enfim um critico que viu ,e analisou Bem ,o filme que eu assisti ,porque o resto da critica ,ou viu coisas que não vi ,o assistiram outra película.

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