Crítica | CinemaDestaque

Morte Morte Morte

Espelhos do algoritmo

(Bodies Bodies Bodies , EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror, Comédia
  • Direção: Halina Reijn
  • Roteiro: Sarah DeLappe, Kristen Roupenian
  • Elenco: Amandla Stenberg, Maria Bakalova, Rachel Sennott, Chase Sui Wonders, Myha'la Herrold, Pete Davidson, Lee Pace, Connor O'Malley
  • Duração: 95 minutos

A atriz e diretora Halina Reijn (de Instinto) estreia seu segundo longa-metragem essa semana nos cinemas, Morte Morte Morte, e já demonstra um grau de ambição condizente com o que se entrega, correspondendo de uma maneira bizarra com a qualidade. Bizarro porque a complexidade do que o filme tenta dar conta não é pouco, tampouco pequena; conseguir conectar o terror e o humor, ainda mais quando ambos vêm de zonas distintas, não pode ser diminuído. São tintas díspares e arriscadas, que não se pretendem vazias, mas abordam justamente um caráter social inócuo diante do outro. O que poderia ser traduzido como psicopatia, aqui é transformado em naturalismo; mas não qualquer um, e sim um de tintas berrantes, concatenadas com o jovem do presente.

O que o roteiro de Sarah DeLappe escancara é justamente essa ode à ignorância, que enquanto tal, obviamente não se enxerga. Ignorância do ato de ignorar, outrem ou fatos, que contribuiriam para seu crescimento, emocional ou intelectual. Essa perspectiva narrativa que se alia ao cinema de gênero é uma forma jocosa de fazer o seu próprio público como propagador de tais pastéis de vento reflexivos. Além de colocar essa discussão de maneira direta, Morte Morte Morte não esvazia sua narrativa com gratuidades visuais ou verbais; em cena estão comunicações diversas que se encontram por agenda de obrigação formal. Tirando essa pontuação alta, o filme atrai o amante do terror pelo abraço ao slasher, mas vai além, ao não reverenciar o gênero sem propor participação efetiva da modernidade oral.

Morte Morte Morte
A24

O mais curioso é que Morte Morte Morte consegue falar de inoperância intelectual sem parecer esnobe ou infligir as mesmas regras. Isso faz parte do jogo cênico inclusive, imaginar o ponto de interesse e cercá-lo de muletas que pareçam apontar na mesma direção, mas cometer a audácia de não ceder às tentações que o jogo fornece. Seria até fácil cair em tais armadilhas, como julgar seus personagens e situações, se colocar acima de suas características para se considerar mais esperto. Isso não acontece porque tanto Reijn quanto DeLappe encaram com seriedade tudo que está sendo mostrado e montado, mesmo o bom humor. Não estamos diante de um processo inumano para com sua criação, mas de um conceito muito bem aplicado onde se acredita em cada informação passada. 

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Temos um conceito em cena. Acredita-se nele. Diante de tal quadro, tudo o que é produzido, narrativa ou imageticamente, busca a verdade daquele universo em si. É a melhor maneira de se encarar o seu material, com dignidade e integridade. O que vemos em Morte Morte Morte é o seu estudo comportamental de massa, frequentemente atrelado (e propagado) às redes sociais, analisado através exatamente de quem o comete, assistir ao nascimento da linguagem exatamente pela voz de quem o produz. Pode parecer (e eventualmente será) redundante, mas dentro do universo analisado, isso cabe, por termos esse comportamento de manada que produz o efeito surtido em tela – a repetição, o desgaste estético, a absorção do vazio transformado em discurso. A partir da compreensão dessa ideia, o filme passa a soar orgânico. 

Morte Morte Morte
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Todos os seus personagens, das meninas falsamente descoladas e pretensamente inclusivas, ao homem mais velho inserido em contexto extraterrestre à sua presença, conversam com a realidade de instagram e tiktok. Roteiro e direção caminham juntos para não deixar o gênero ser assolado por essa carga extra que a contemporaneidade lega a produção, mas também entende que o projeto é comum aos seus desígnios externos, não tem como ser apartado. Esse equilíbrio transforma a experiência do espectador com o filme, mas compreende-se o desconforto do público diante de personagens absolutamente reais – ainda que agudos. Estamos ao lado dessas figuras no dia a dia, que podem ser mais atraentes ou mais repelentes, dependendo de quem os vê; negá-los é contribuir para o não entendimento de uma geração. Tudo o que vemos em cena, de xenofobia ao racismo e a misoginia, passando pelas recusas em apoiar essas mesmas práticas, é o resultado do lugar que a rede social nos colocou, onde precisamos estar constantemente “bem na foto” – ou seja, regurgitando um discurso 24 horas por dia. O filme mata essas pessoas, e como isso é encarado pelo público, o mesmo que está na tela e fora dela?

Morte Morte Morte é, em resultado, uma experiência subjetiva de maneira radical. Não porque toda peça de cinema não o seja a priori, mas porque sua externalização temática acaba por influenciar na visão do todo. Se olharmos para o que está sendo dito e até mesmo sacaneado, o filme concretiza suas intenções com sutileza tamanha que parece endossar o discurso; nas entrelinhas, essa percepção também é particular. E enquanto cinema de gênero, o rocambole de Reijn igualmente funciona – é um slasher, para quem estava com saudades de um, conectado ao nosso tempo, como os melhores o são. A depressão com o fim da geração “paz e amor” em O Massacre da Serra Elétrica, a busca pela construção de autoralidade em Pânico, a alegoria sobre o fim da inocência da adolescência representado pelo onírico em A Hora do Pesadelo… tudo isso agora é o palco para representar o vácuo emocional que as pautas temáticas são regurgitadas por uma fatia da sociedade, em seus endereços virtuais – de maneira vazia, apenas decalcada do alheio – em Morte Morte Morte. 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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