Crítica | Festival

Império da Luz

Muito além de si

(Empire of Light, RUN, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sam Mendes
  • Roteiro: Sam Mendes
  • Elenco: Olivia Colman, Micheal Ward, Colin Firth, Toby Jones, Tom Brooke, Hannah Onslow, Tanya Moodie, Crystal Clarke, William, Chubb, Sara Stewart
  • Duração: 115 minutos

Se há alguma expiação sendo feita em Império da Luz, ela acontece com absoluta construção de uma protagonista que não está em sua rotação natural. Abertura do Festival do Rio 2022, o filme de Sam Mendes (e talvez, também Sam Mendes) está olhando sob o microscópio para um autoflagelo atual a respeito da alienação espontânea. Apesar de ser ambientado em 1981, a produção conversa com o hoje de maneira direta. Olha para esse presente com espanto, até algum temor, para criar um paralelo sintomático sobre uma fatia comportamental hoje. A doença é clara, mas permanecer em estado adoecido por escolha própria é um viés de desajuste que precisa de um gatilho para liberar outros lados de nossa sensibilidade; o mundo aberto para o que nos toca.

Esse é o primeiro filme de Mendes desde 1917, e promove um retrocesso do diretor ao espetáculo que vinha promovendo até então. Longas da franquia 007 e essa recriação da Primeira Guerra Mundial mostraram ao mundo o que o diretor britânico era capaz de acessar em larga escala. Aqui, seu pincel retorna a títulos como Foi Apenas um Sonho, onde a investigação emocional e psicológica de seus personagens é o foco. Na verdade essa é a grande surpresa de um projeto que parecia mais espraiado em sua temática, e no fundo trata seus símbolos de maneira muito cuidadosa, com um olhar mais íntimo e interiorizado. Não há uma situação agigantada na produção que não esteja exclusivamente limitada à passagem que estampa o poster, e que rapidamente é encerrada; esse momento e como ele é construído e suprimido é uma demonstração do arcabouço de Império da Luz.

Império da Luz
Cortesia Festival do Rio

Essa diminuição de escala é própria para contar essa história sobre o nascimento de sentimentos, ou desconhecidos ou perdidos, dentro de um indivíduo, como uma espécie de metáfora social. Então talvez se aquele escopo citado a respeito de escala for aplicado em Império da Luz, ele se debruça especialmente sobre as relações (e reações) humanas. Hilary é essa mulher na escuridão do desejo, na penumbra dos eventos à sua volta, não por aplicação de egoísmo, mas sucumbida de torpor, palavra que ela mesma usa para se definir. Suas pupilas são constantemente dilatadas após a chegada de Stephen ao seu trabalho, que libera uma onda de novas sensações ao incômodo que ela vinha ebulindo dentro de si. 

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O que essa personagem tenta representar é esse escurecimento social diante do que não é sua realidade. Por estar desconectada do outro, necessariamente lhe falta empatia? Império da Luz é um filho legítimo dos últimos dois anos, da ascensão da extrema direita no mundo, de uma pandemia que matou milhares mas exterminou também nossa capacidade de contato. Assim no papel, é tudo muito brega e explícito; no filme, Mendes reorganiza seus códigos dentro de uma personagem que permite ao filme se desenvolver por terreno perigoso. Uma mulher que não está mais entre nós, psicologicamente falando, e tem contato inédito com sua própria abstenção emocional, e a posterior abertura de uma fresta. O roteiro do diretor cria os atalhos possíveis para que sua personagem não seja vilanizada, ou tratada como uma deslumbrada. 

Ajuda também que Hilary seja vivida por uma força da natureza como Olivia Colman, que não cansa de deslumbrar nessa sucessão ininterrupta de momentos antológicos de uma carreira. Ela compreende o princípio, o meio e o fim da personagem em tela, não apenas no aspecto extra tela; está lá a mulher que já foi, e a que ainda virá, tudo na pupila de sua atriz. Através do que ela exibe, o espectador compra sua fragilidade e suas camadas sejam enfim evidenciadas, como uma figura a ser descoberta, e também em estágio de maravilhamento com o que lhe é apresentado. Se Mendes a usa como uma ferramenta de moldura para tais sentimentos que lhe cabem, fica na superfície a maestria com que construiu no papel tal personagem, envergada para caber uma vergonha talvez ancestral. A timidez que ela atribui a si, veste muito bem no corpo de Colman, e acaba por transformar Hilary em uma vítima que não quer mais tal alcunha para si. 

Império da Luz
Cortesia Festival do Rio

Império da Luz não angaria para seu entorno uma fala problemática como a de Green Book, em exemplo. Isso porque sua relação com o espectador se possibilita através de uma personagem com as curvas psicológicas de Hilary, seja esse gatilho compreendido de forma proposital ou não por Mendes. Porque, narrativamente, esse é o lugar mais adequado a se contar essa história – os registros da personagem estão falhos, e o roteiro se permite adentrar em questões sociais através dela, uma mulher alquebrada de muitas formas. Sua existência não eclipsa a existência de Stephen, que é pleno de atividade ao seu lado, com uma história desenvolvida e estruturada com base concreta; não se trata de um boneco construído para o desenvolvimento de uma culpa branca. 

Ao contrário disso, temos essa textura muito íntima de um tempo, ontem ou hoje, onde o horror está ao nosso redor, e o despertar será feito, por nossa vontade ou contra ela. Não diminui Império da Luz que em sua análise seja feita à sombra de um filme como Muito Além do Jardim, clássico de Hal Ashby que serve de síntese para a história de Hilary, uma mulher que também precisa olhar além de sua enfermidade para poder libertar a si mesma de uma casca inerte. O cinema permite isso, que nossa comunicação seja aprimorada, com o mundo ou com nosso conhecimento particular. É uma fonte não muito inédita, mas com a mão de Mendes e o corpo de uma atriz gigantesca, mais uma vez funciona. 

Um grande momento
Ajuda para Hilary

[Festival do Rio 2022]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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