CríticasFestival do Rio

Os Miseráveis

(Les misérables, FRA, 2019)
Drama
Direção: Ladj Ly
Elenco: Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga, Issa Perica, Al-Hassan Ly, Steve Tientcheu, Almamy Kanouté, Nizar Ben Fatma, Raymond Lopez, Luciano Lopez, Jaihson Lopez, Jeanne Balibar, Sana Joachaim, Lucas Omiri, Rocco Lopez
Roteiro: Ladj Ly, Giordano Gederlini, Alexis Manenti
Duração: 102 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Montfermeil ė o lugar onde as tensões e sonhos se comprimem na periferia parisiense. Lá, Victor Marie Hugo ambientou seu romance mais conhecido, “Os Miseráveis”, título também do filme de Ladj Ly, cineasta do Mauii que migrou para França com os pais e se criou no bairro. Tendo como verniz o nacionalismo e a falsa imagem de democracia racial que a França apregoa mundo afora – em especial tendo como chamariz a seleção nacional de futebol, bicampeã do mundo com talentos advindos das colônias ou filhos de imigrantes – ele se inspira na obra símbolo da Revolução Francesa para contar uma história sobre excluídos, luta de classes, poder e dominação.

Alex Maneti, que interpreta o racista policial Cris, também é roteirista do filme junto com Ly e Giordano Gederlini – nessa que na realidade é uma versão do curta lançado em 2017. Quem também – seus papéis são Djil Zonga (Gwanda) e Damien Bonnard (Stéphane), formando a trinca de vigilantes da lei que intermedeiam o contato da brigada anticrime com a comunidade de imigrantes que vive naquela periferia. Por eles, muito sangue será derramado, mas o testemunho ocular de uma criança desencadeará um martírio – foco na ótima utilização, assim como em Bacurau, de um drone como recurso diegético.

Algo muito contumaz para as audiências brasileiras nos favela movies, a combinação raiva, levante popular e repressão policial tem sua vertente francesa explorada com sagacidade por Ly/Maneti que, apoiados na metáfora da igualdade, atenuam escolhas sobre bons e maus, num enredo que relativiza, sim, os culpados, mas para uma compreensão do quadro geral e da gravidade de uma sociedade tão estratificada, onde um simples ato de rebeldia infantil se transforma num barril de pólvora.

Stéphane com sua persona de inspetor Javert tenta ser a voz da razão em meio a seus companheiros que já estão afundados numa espiral fascista de opressão e os membros da comunidade que não aguentam mais viver com medo ou servir de saco de pancadas. Assim como outro filme importante nesse ano, o colombiano Monos de Alejandro Landes, as crianças pegam em armas e assumem o controle da narrativa sendo que o resultado no filme de Ly é bem mais original e satisfatório.

Num mundo com tantos Valjeans, Cosettes e Fantines sendo oprimidos diariamente apenas por ousarem existir, a existência desse filme como a visão arguta sobre um mundo colapsando, desumano, é a bandeira que tremula nas mãos da liberdade que guia o povo.

Se a miséria das classes baixas é sempre maior que o espírito de fraternidade das classes altas que venham mais atos de Ladj Ly dando voz aos excluídos da sociedade francesa em filmes tecnicamente belos e narrativa mente potentes, que reverberam das ruas, das periferias suas histórias em salas de cinema portentosas.

Um Grande Momento:
Sequência de abertura.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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