Crítica | FestivalFestival do Rio

Acqua Movie

(Acqua Movie, BRA, 2019)
Drama
Direção: Lírio Ferreira
Elenco: Alessandra Negrini, Antonio Haddad Aguerre, Guilherme Weber, Marcelia Cartaxo, Aury Porto, Augusto Madeira
Roteiro: Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Marcelo Gomes
Duração: 105 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Sertão. Remete a aridez, ar, água…. Elementos que confluem nas secas rigorosas, que traduzem a dimensão mística e onírica grandiosa do território banhado pelo Velho Chico. O rio é personagem de Acqua Movie, segunda parte – intermediária – da trilogia moderna do pernambucano Lírio Ferreira.

Trazendo uma história que se locupleta, onde o primeiro filme era sobre o jornalista que, há muito tempo distante da terra natal regressava para tentar acertar as pontas com o pai. Aqui, vemos mãe e filho trazendo as cinzas do amado Jonas, natural de Cabrobó (na ficção, chamada de Rocha) para serem jogadas no rio São Francisco.

Mas tudo mudou, inclusive a relação entre os parentes próximos e aqueles que representam a raiz do jornalista, em especial o irmão Maurício, prefeito inescrupuloso da cidade de Nova Rocha. A antiga, submersa por conta da represa instalada, serve como metáfora poderosa para a própria transformação espacial e social daquele lugar, típico curral eleitoreiro de velhos coronéis políticos – inclusive o governador é vivido pelo cineasta Cláudio Assis em um cameo hilário.

Falando da cumplicidade por trás das câmeras, Lírio escreve a seis mãos o roteiro que fala de ausência e permanência. A colaboração vem de Paulo Caldas (Saudade) e Marcelo Gomes (Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar). O resultado é um filme, road movie inspiration, não só com belas paisagens exteriores como interiores.

A interação entre Alessandra Negrini e Antonio Haddad Aguerre transmuta em uma relação parental bonita, complexa e de muito perdão além das impossibilidades emocionais – ela é uma fotógrafa workaholic mas que vem a muito querendo se reconectar com a cria e mostrar a ele como o mundo está de fato. O menino é mimado, carente e se deslumbra fácil com as chantagens emocionais da família do pai (aqui talvez resida um incômodo por ver um elenco bom meio desperdiçando em personagens caricatos demais, como Marcélia Cartaxo) mas logo uma situação traumática o faz buscar colo nas crenças da mãe.

Conectado com a sua própria ancestralidade – também indígena! -, com as memórias daquele lugar que dizem tanto sobre o pai, o menino traz a mãe também de volta ao seu centro e juntos eles tomam as rédeas da própria história, no curso certo e majestoso do rio.

Lírio intercala bem cenas de maior ação com a introspecção necessária para permitir uma empatia com os dois personagens principais, entremeando seu filme com imagens poéticas do rio, as paisagens e os viventes. Um caminho interessante trilhado, que resulta numa obra Audiovisual boa de desfrutar – e já deixa imaginando que arremata final trará para a saga no air movie, Já anunciado em coletiva de imprensa.

Um Grande Momento:
Ritual xamânico de cura.

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[Festival do Rio 2019]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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