Crítica | FestivalFestival do Rio

Vitalina Varela

(Vitalina Varela, POR, 2019)
Drama
Direção: Pedro Costa
Elenco: Vitalina Varela, Ventura, Manuel Tavares Almeida, Francisco Brito, Marina Alves Domingues, Imídio Monteiro
Roteiro: Pedro Costa, Vitalina Varela
Duração: 124 min.
Nota: 10 ★★★★★★★★★★

Do escuro estático, movimentos discretos surgem e trazem a imagem. Do mais básico do cinema, o uso da luz para formar imagens, Pedro Costa reconstrói o seu próprio cinema. Cinema que me já me interessou, mas nunca me arrebatou como agora nessa (re)construção. Tudo o que se vê em Vitalina Varela, se conhece, mas não daquela forma, naquela condição.

Entre as imagens que surgem na penumbra, reorganiza-se o gênero. Vitalina ressurge propositalmente gigantesca para falar de tudo: masculinidade, colonização, abandono, solidão, fé. Costa faz questão de deixá-la cada vez mais dona da cena, soberana. Ela é maior do que todos e do que tudo. E não é apenas uma questão de espaços pequenos, nem são só os que a circundam que param para ouvi-la, o diretor se curva à sua força.

Enquanto se vive a grandiosidade daquela presença enlutada, é possível voltar ao passado, o que proporciona um jogo entre duas camadas distintas. Aquela que constrói toda a desventura da personagem que sai de Cabo Verde para enterrar o marido em Portugal, e a que estabelece um lugar idílico e agora inatingível, numa ficcionalização comum em momentos de morte onde o que se busca é o amparo positivo.

É nesta morte e neste retorno ao que já se havia perdido que está o que o filme tem de mais interessante. Principalmente por essa conexão tão pertinente com a migração de Cabo Verde. Enquanto a Europa é um lugar velho e empoeirado, com uma fé desgastada (em uma ótima participação de Ventura como padre), e Portugal literalmente desaba na cabeça de Vitalina, o passado aparece em discurso e imagens como um lugar de paz e tranquilidade.

Vitalina é uma mulher que são muitas e Pedro Costa conseguiu perceber isso. Com sua habilidade na construção de imagens, no jogo sensorial que sempre o acompanhou e na atenção que já dava às palavras, encontrou uma outra luz nesta mulher que já esteve diante de suas câmeras antes e com ela construiu uma outra realidade.

Em Vitalina Varela temos um outro Portugal. Tudo está caindo aos pedaços enquanto os homens fazem aquilo que não se esperava deles. A igreja está vazia e o padre fala para ninguém. Do alto de tudo Vitalina espia, sente e julga. Ela pode.

Um Grande Momento:
No banho.

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[Festival do Rio 2019]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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