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Bala Perdida 2

Cérebro em repouso

(Balle Perdue 2, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Policial
  • Direção: Guillaume Pierret
  • Roteiro: Guillaume Pierret
  • Elenco: Alban Lenoir, Stéfi Celma, Sébastian Lalanne, Pascale Arbillot, Diego Martín, Anne Serra, Jérôme Niel, Khalissa Houicha, Quentin D'Hainaut, Nicolas Duvauchelle
  • Duração: 95 minutos

Os criadores de Bala Perdida decerto tinham por pensamento estar de frente para uma obra inesquecível da cinematografia mundial. Só isso justifica o fato de que sua continuação, que acabou de entrar em cartaz na Netflix, Bala Perdida 2, não ter qualquer introdução inicial em relação à primeira parte anterior, acreditando que todo o público recordaria essa produção tão marcante do cinema francês. Brincadeiras à parte, saímos do novo filme exatamente como entramos: no escuro. Olhamos e não compreendemos o motivo pelo qual esse filme foi colocado de forma tão simplificada na leitura de sua dinâmica narrativa, que faz questão de deixar o espectador à deriva no filme, catando migalhas para tentar acessar o longa de sua carreira. 

Guillaume Pierret assina o roteiro e a direção pela segunda vez, e aqui demonstra que uma aura séria impregnou sua obra, perdendo o tom de galhofa que tão bem fez ao primeiro. Dessa vez, mesmo com o momento descontraído da cena onde Lino constrói uma nova bugiganga chamando a comédia, o filme essencialmente é não apenas muito sério, como sisudo. Se o primeiro podia ser chamado de uma espécie de Velozes e Furiosos francês, esse novo perde o ar de sua graça e cisma de procurar uma grandiosidade e uma urgência que sabotam a abordagem anterior. Há sim como realizar um blockbuster sem leveza, mas aqui parece que houve uma tentativa de nova personalidade, o que deixou o produto sem qualquer diferenciação.

Bala Perdida 2
Julien Goldstein

Bala Perdida 2, originário de um título sem muitas particularidades, apenas um desses filmes para cumprir tabela da Netflix a estrear, fazer sucesso e depois sumir, deu luz a uma sequência igualmente genérica, mas que peca por perder a essência do original. Parece algo que não tinha uma especialidade gerou um fruto igualmente com essa característica, porém agora sua geração é de uma outra raça ordinária. O que espanta é o espectador, no fim das contas, perceber um novo final em aberto, que dará origem a mais uma parte de uma franquia de filmes bastante aleatória. A comparação com a franquia de carros de sucesso norte-americana não faz nenhum sentido, tendo em vista que aqui nem existe mais a predisposição da temática envolvendo o protagonista. 

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Lino era um mecânico de carros que trabalhava com os ”vilões”, e aqui parece ter aderido ao ‘outro lado da força’, agora sujeito ao Estado. Tudo é muito gratuito e aleatório, sendo arremessado na nossa direção de qualquer maneira, apenas uma passagem de tempo que justifique isso e é o que temos pra hoje. O filme instaura uma tensão ininterrupta, em uma ação quase única do filme, a negociação em torno de um homem responsável pela morte de seu irmão. Não podemos negar a qualidade da concisão; Bala Perdida 2 não tenta criar algo além de que poderia estar nessa premissa, o filme é exclusivamente isso, e funciona muito bem ser apenas sobre isso. O que não o impede de deixar de garantir lógica às motivações de todos na produção, é tudo despropositado, existe apenas por existir. 

Bala Perdida 2
Julien Goldstein

Ou seja, estamos diante de um produto literalmente vazio. Ou melhor, Bala Perdida 2 pede para que o espectador esqueça que existe um músculo chamado cérebro. Não há qualquer necessidade de utilização do mesmo, porque a intenção do filme é que você passe 1 hora e 40 minutos anestesiado assistindo a uma correria não tão frenética assim, e que não irá te levar a lugar nenhum. Quando mais cedo você se der conta de que o resultado é esdrúxulo para algo corriqueiro, menos frustrado irá se sentir. E o tal gancho do final, tal qual um mote de fim de capítulo de novela, talvez seja o que o filme tenha de mais interessante e suculento. Mas quem se importa mesmo com tais personagens e suas motivações, que o filme nunca faz questão de nos conectar? 

Um grande momento

Tentativas de recolocar Marco no porta-mala

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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