- Gênero: Drama
- Direção: Dolores Fonzi
- Roteiro: Dolores Fonzi, Laura Paredes, Agustina San Martín, Nicolás Britos
- Elenco: Dolores Fonzi, Camila Plaate, Laura Paredes, Julieta Cardinali, Sergio Prina, Luis Machín, César Troncoso, Lili Juárez, Ruth Plaate
- Duração: 105 minutos
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Uma jovem chega a um hospital público em Tucumán com uma hemorragia intensa e sai de lá acusada de homicídio. Entre uma coisa e outra, quase nada é explicado, mas muita coisa é decidida. Essa é a história baseada em fatos reais de Belén: Uma História de Injustiça. Em 2014, uma mulher que não sabia que estava grávida é transformada em suspeita durante um atendimento médico. O caso se tornou conhecido: prisão preventiva, acusação sem base probatória consistente, quase três anos encarcerada até a anulação do processo, em 2017. O filme percorre esse caminho consciente de que, em uma sociedade machista que não respeita o direito ao próprio corpo, não há nada de extraordinário nesse caso.
A direção de Dolores Fonzi opta por uma encenação direta, quase protocolar. Os espaços são reduzidos ao que precisam ser, as cenas se encadeiam sem desvios e os diálogos seguem um fluxo previsível. Essa forma mais rígida reforça o funcionamento de um sistema que não depende de excesso para se impor. A partir do momento em que o caso sai do hospital e entra no campo jurídico, Belén se sente mais confortável na forma de um drama de tribunal. A narrativa passa a se organizar em torno de depoimentos, versões e disputas de linguagem. Não se trata apenas de provar o que aconteceu, mas de definir como aquilo pode ser nomeado.
É nesse deslocamento que o sistema aparece com mais clareza, com as instituições operando de maneira concatenada. O hospital, a polícia e o Judiciário se articulam na produção de uma mesma narrativa, que encontra respaldo em uma lógica que antecede o caso. A suspeita recai sobre um corpo específico, e a estrutura que a sustenta não precisa se justificar para seguir adiante.
A personagem vivida por Camila Plaate permanece em fluxo desorganizado. Há dificuldade de compreender o que está acontecendo e o filme não explica. A experiência permanece fragmentada, como também é o modo como ela atravessa o que vive. Soledad Deza, vivida pela própria Fonzi, é o contraponto. Reorganizando as relações em cena, sua presença muda o ritmo sem que o filme precise alterar sua estrutura. Há um domínio da palavra, uma forma de ocupar o espaço que contrasta com o silêncio e a desorientação de Belén. Ainda assim, a atuação não se constrói como gesto de liderança, mas como tentativa de intervir em algo que já está em curso.
A encenação, básica, acompanha o percurso de Belén sem buscar resolução. As situações se repetem, o tempo se alonga e o processo segue adiante. O que se acumula não é prova, é método. Cada etapa confirma a anterior, e o que começou como atendimento se consolida como acusação, assim como esta se transforma em movimento, sem que seja necessário interromper o fluxo.
Nesse passo, o filme deixa claro o tipo de estrutura que sustenta o funcionamento. Trata-se de uma engrenagem que protege a si mesma e, ao fazê-lo, preserva uma ordem patriarcal que define quais corpos podem ser escutados e quais são sempre suspeitos. O corpo de Belén entra nesse sistema sem possibilidade de negociação. O que se vê, então, não é a falha de um conjunto de instituições, mas a sua infeliz coerência.
Um grande momento
Voz de prisão na mesa de cirurgia


