Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa apareceu
Está tudo assim tão diferente
Tem filmes que não citam nada, mas fazem a memória trabalhar sozinha, como uma fita que alguém rebobina dentro da gente. 400 Fitas Cassetes, de Thelyia Petraki, entra nesse lugar com uma delicadeza quase distraída. Acompanhamos um dia de Elly e Faye, feito de gestos simples, uma aula, uma troca, pequenas invenções para passar o tempo, como se o mundo coubesse ali naquele intervalo curto. E, ainda assim, algo já se insinua desde o início: a sensação de que aquilo que se vive está prestes a escapar.
É nesse ponto que o filme parece puxar uma das fitas empoeiradas da memória e encontra “Por Enquanto”, de Renato Russo, como um eco. Não é, claro, como referência direta, mas como sintonia. A percepção de que tudo muda, quase à revelia de quem vive, enquanto alguma coisa insiste em permanecer, meio teimosa, meio ingênua. O curta se move nessa frequência, observando o presente com carinho, enquanto o tempo atravessa cada cena como um vento leve que já anuncia outra estação.
Se lembra quando a gente fingiu um dia acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba
A canção não organiza o sentimento, ela convive com ele. E é justamente aí que o filme se encontra com ela. Em 400 Fitas Cassetes, o encontro entre Elly e Faye já parece atravessado pela memória. Não há um antes e um depois claramente definidos. O presente se deixa viver como se já fosse lembrança. Cada gesto carrega essa dupla camada, o que acontece e o que já começa a se perder.
Há um momento na música em que a mudança não rompe o vínculo, apenas o desloca. O curta trabalha exatamente nesse território. A relação entre as duas nunca se fixa completamente. Permanece no intervalo, no olhar, na escuta, na partilha de um mundo que ainda permite esse tipo de intensidade sem nome. Talvez seja justamente por não se fixar que ela permanece.
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
O filme se organiza a partir dessa consciência. Não como despedida declarada, mas como percepção de que algo se encerra enquanto ainda acontece. Elly e Faye ocupam o agora com uma urgência silenciosa, como quem sabe sem dizer que aquele dia não se repete. Nada explode, nada se impõe. O deslocamento é sutil, acumulado, sentido mais do que explicado.
O uso do analógico intensifica esse movimento. As fitas, a imagem granulada, o som imperfeito. Tudo aponta para uma tentativa de guardar aquilo que já está escapando. Como na música, a memória não surge como reconstrução fiel, mas como permanência atravessada pelo tempo. O que fica nunca é inteiro. Carrega ruído, desgaste, ausência.
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
O curta evita qualquer clímax evidente. Não há um momento que organize o fim. A relação se desfaz na mesma lógica em que foi construída, aos poucos, sem anúncio. Isso aproxima ainda mais o filme da canção, que também não resolve o sentimento que apresenta. O que permanece não é conclusão, mas continuidade.
No fim, 400 Fitas Cassetes existe nesse espaço em que o tempo transforma tudo, enquanto certas sensações continuam retornando. Não como certeza, mas como presença insistente.
Um grande momento
Olhando para o céu


