Crítica | Outras metragens

Bicho Azul

Tudo acaba

(Bicho Azul, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Rafael Spínola
  • Roteiro: Rafael Spínola
  • Duração: 17 minutos

Como ficamos quando tudo acaba? Quando nós acabamos, quando acaba um bicho, quando acaba a vida dos outros, quando acaba o amor… porque, um dia, tudo acaba. E se tudo acaba, precisamos lidar com esse fim e de alguma forma juntar os cacos que se formam a partir dele. Bicho Azul, filme na competição da Mostra Foco em Tiradentes 2022, é um filme que fala sobre um cachorro – ao menos, em tese. O cachorro é a base de uma narrativa curtíssima, um e-mail lido por 7 minutos sobre o bicho. Ele está em cena o tempo todo, e o tempo todo não está. O bicho é outro.

Rafael Spínola já foi premiado por curtas anteriores, tanto Nossos Traços quanto A Mentira passaram por festivais arrebatando seus júris e criando uma respeitabilidade que nos levou a um dos lugares mais prestigiados para um cineasta no país, por criar tendências futuras, tanto de público quanto de mercado. Seu filme novo tem uma doçura tão evidente que as tentativas do diretor de tirar o foco principal do que está narrando efetivamente, e que explicitam o real tema do filme, não tiram dele sua força, que sabemos ser exclusivamente narrativa.

O fim, em questão, não é especificamente de uma vida idosa, mas de um sentimento idoso, que ficou na sombra de um passado esquecido… ou quase esquecido. O que motiva a feitura do e-mail chave não é a doença de um animal em comum, mas a doença que assola o peito de seu protagonista, um Rafa qualquer – ou O Rafa, pseudônimo e protagonista de um filme que tem uma textura tão pessoal que fica difícil assistir a tudo impassível e não se envolver com o fim em questão, tão inevitável, mas não por isso menos doloroso.

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As imagens trazem um canto específico da própria cidade de Tiradentes e as imagens de seu protagonista escondido, o tal cão, que vai sendo desvendado aos poucos para que percebamos seus meandros. Não há muito o que ser revelado pela imagem única que ilustra a produção, que deixa viva pelos 7 minutos em questão o quão vazio e longevo podem ser as coisas, as que estarão pra sempre vivas e as que, como a maioria do resto, tem data específica pra se encerrar – seja uma existência ou seja o amor, tudo acaba.

Bicho Azul, em sua simplicidade cheia de gentileza, também deixa rolar um breve pranto quando aceitamos que mesmo os espaços tendem a acabar se permitido assim for, e que esse filme esteja passando numa mesma Mostra Tiradentes que Lavra, é uma conexão que não se imagina à primeira vista, mas que comunica muito sobre como abrangente pode ser o fim. De repente, não é apenas o físico também em sinal de extinção, e as imagens sendo apagadas dizem que não é apenas o amor que acaba. Os bichos acabam, as imagens acabam, as cidades acabam, tudo acaba. Em alguns casos, nos resta a melancolia de juntar os pedaços de fim; em outros, nossa voz precisa ser bradada.

Um grande momento
O uivo

[25ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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