Crítica | Festival

Emergency

Discursos e ações

(Emergency, EUA, 2022)
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Carey Williams
  • Roteiro: KD Davila
  • Elenco: RJ Cyler, Donald Elise Watkins, Sebastian Chacon, Sabrina Carpenter, Maddie Nichols, Madison Thompson, Diego Abraham, Summer Madison, Gillian Rabin
  • Duração: 105 minutos

A escola está acabando, em breve a faculdade vai começar e chegou a hora da grande despedida. Quantos filmes sobre isso você já viu na sua vida? Tendo como motivação fazer sexo pela primeira vez, tomar o primeiro porre ou qualquer coisa que o valha, podemos começar aqui uma lista e nela estarão American Pie e todas as suas muitas continuações, Superbad – É Hoje e Fora de Série. Três comédias, mesmo mote, mas com abordagens e um jeito de lidar com o humor muito particular de cada uma. Em específico, é interessante ver como as histórias vão se deslocando de seus eixos tradicionais. O último, por exemplo, já é uma ruptura com um padrões do subgênero, dominado por protagonistas homens brancos, heterossexuais e cisgênero. Emergency, curta-metragem transformado em longa pelo diretor Carey Wiliams, é mais uma vez a repetição da mesma história, mas é também ruptura.

Sean e Kunle, vividos respectivamente por RJ Cyler e Donald Elise Watkins, excelentes nos papéis, são amigos da vida toda, colegas de quarto, e querem fazer um tour lendário por todas as festas das fraternidades da escola. O objetivo é completar o circuito, tendo assim um motivo para estar no no hall da fama dos estudantes negros do lugar. Bobagens adolescentes, suas experiências, experimentações, atitudes instintivas e inconsequentes, estão por todo lado, como não poderia deixar de ser, assim como as descobertas e a definição de posturas. É um filme sobre o fim do segundo grau, afinal de contas. O grande diferencial de Emergency é a atualização do filme, numa adequação de seu conteúdo a uma sociedade um pouco mais consciente, sem deixar de mostrar que a consciência é relativa. Desde o começo, é muito claro que, sim, as coisas mudaram, as posturas mudaram, o modo de falar mudou e, ainda que não seja uma regra, hoje é vergonhoso ser machista ou racista. Mas falas não mudam atos, e o dito não muda o institucionalizado, não é mesmo? 

Aqui o plot é o seguinte, antes de começar sua jornada, os dois amigos precisam passar em casa e lá encontram uma menina branca desacordada no meio da sala. Sem saber o que fazer e com medo do que a polícia pode pensar já que eles são negros e dividem o lugar com Carlos (Sebastian Chacon), um latino, fazem a escolha errada. Depois de se aventurar em uma interessante e moderna adaptação de “Romeu e Julieta”, Wiliams se sai bem com um filme do tipo nightmare time, desses em que um evento errado vai levando a outro e a outro, justificando novas interações e personagens, e a noite ou dia parecem não ter fim.

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Já nesse começo, há dois pontos chamativos. De um lado há uma mulher que precisa de ajuda e eles farão o que podem para ajudá-la, mas desde que isso não os prejudique; de outro, há três homens que não terão chance sequer de falar por sua aparência e, embora não tenham certeza disso, é algo que não precisam ter experimentado para saber. São minorias e, ali, naquela sala, já estão sofrendo uma violência, mesmo que ela não se apresente graficamente. O diretor estimula a percepção na tensa conversa entre os três, contrapondo as posições de Kunle e Sean, que têm histórias de vida completamente diferentes e as ideas do trio: que vão da inofensiva chamar uma garota à infâme — mas é sobre isso — chamar um jogador do time da escola.

O filme é evidente em seu discurso e isso só o torna mais interessante. Desfilando pela escola de maioria branca, buscando sempre essas mudanças que fazem os próprios personagens e seu círculo de convívio repensar suas posturas e escolhas. Há um interessante jogo de modificação do velho, principalmente em algo que conhecemos e vemos há tanto tempo retratado. Está tudo ali: a dupla que contrasta, com um estudioso e outro porra louca; a mãe superprotetora que está longe mas sempre sabe; e o amigo que é mais escanteado, porém, tudo chega diferente, trazendo pautas que só por estarem ali já subvertem o gênero. E o roteiro de KD Davila faz isso mantendo o humor, sempre ácido, e destacando os momentos onde o drama precisa ser reforçado, algo que Williams pontua muito bem com a mudança de tempo, efeitos e ângulos de câmera.

O filme tem sequências surreais, como a aula onde a professora britânica discute “trigger warnings” ou “avisos de gatilho” e leva à discussão, com uma propriedade acadêmica que ela pensa ter, a palavra “nigger”, ou quando Carlos questiona a banalização do uso das palavras “pussy” (vagina) e “bitch” (puta) em uma discussão dos dois colegas de quarto. Há ainda uma importante discussão sobre a validação da negritude e a conclusão arrebatadora que a complementa. “Eu só estou fazendo isso para ter um dia seguinte”.

Olhando assim por cima, Emergency até pode deixar a impressão de ser mais uma história que vimos outras vezes, mas bastam cinco minutos para perceber que não é nada disso. Os tempos são outros e é preciso que se olhe e escute com muito cuidado e atenção tudo o que está sendo mostrado e dito. Óbvio que há pautas — que me são pessoalmente caras – que estando ali, poderiam também ser melhor desenvolvidas, mas são deixadas de lado. Porém, aquela que o filme se propõe expor e desenvolver é abordada frontalmente e a mensagem é clara. Frenético, divertido e tenso, o que se vê é avassalador.

Um grande momento
“Eu só queria ajudar”

[Sundance Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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