Crítica | Streaming

Black

Risco assumido

(Black, BEL, 2015)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Adil El Arbi, Bilall Fallah
  • Roteiro: Nele Meirhaeghe, Adil El Arbi, Bilall Fallah, Hans Herbots
  • Elenco: Sanâa Alaoui, Martha Canga Antonio, Aboubakr Bensaihi, Sanaa Bourrasse, Natascha Boyamba, Soufiane Chilah, Brahim El Abdouni, Simon Frey, Faysel Ichakarene, Théo Kabeya, Eric Kabongo
  • Duração: 95 minutos

Segundo longa da dupla formada por Adil El Arbi e Bilall Fallah (os mesmos responsáveis pelo maior sucesso de bilheteria do ano passado, Bad Boys Para Sempre), Black acaba de estrear na plataforma Reserva Imovision e é impossível olhar para a produção sem lembrar do igualmente premiado O Ódio, dirigido por Matthieu Kassovitz há 25 anos. Em ambos, conflitos entre gangues jovens de minorias raciais e étnicas explodem nas ruas rememorando anos de História de dominação e repressão, à luz de inúmeras formas de violência que enfrentam diariamente em suas trajetórias, que explodem graficamente na tela.

Produzido em 2015, o filme belga causa impactos frequentes, tanto narrativa quanto imageticamente, por não fazer qualquer concessão ao politicamente correto e ousar em suas provocações frequentes, que de tão agudas acabam por incomodar quase o tempo todo. Às raias do histerismo, Black produz no espectador sentimentos conflitantes em como desenvolvemos nossos canais empáticos, e em como historicamente observamos grupos que têm direito a reconhecer sua voz e suas ementas, mas que receberam da sociedade constantes desconfianças, até se colocar em contìnua posição de ataque, contra si mesmo e contra qualquer outro grupo.

Black (2015)

De ritmo febril, o filme é montado pelos próprios realizadores, que também adaptaram o romance de Dirk Bracke ao lado de Nele Meirhaeghe e Hans Herbots, que conseguiram um ritmo invejável de condução do tempo em cena. Se no terço final a ação parece conflituosa demais para a compreensão da mesma, até ali o filme seguia impecável em seu registro do tempo de recuar e do tempo de avançar, quase repetindo as ações pelas quais os próprios personagens se estabelecem como dinâmica pessoal. Fotografado por Robrecht Hayvaert (de Vingança), o filme não exagera na estilização de suas luzes e imagens, apenas contribuindo também para o aprofundamento da narrativa, ao provocar vertigens frequentes no caleidoscópio construído para a fruição dos elementos.

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Ainda assim, Black se situa em lugar ingrato de julgamentos, quando apresenta todos os seus personagens principais de maneira muito negativa. Mesmo os mocinhos provocam coisas muito erradas, e com isso fica difícil subjetivar suas atitudes durante o percurso. Junto a eles, há um invólucro que parece gritar que “o meio constrói o Homem”, até o momento que percebemos que o protagonista masculino tem lastro social proveniente dos pais, e a protagonista feminina é criada dentro de uma redoma cultural pulsante, onde poderia desafogar suas inquietações. Fica claro então que faltam tons particulares aos personagens, ainda que o contexto esteja presente – mas como viabilizar a voz dos mesmos, quando eles tiram as vozes de outros?

Black (2015)

A situação se complexifica ainda mais quando somos apresentados a personagens negros e marroquinos em situação de poder, ou seja, tirando a razão do discurso dos personagens e colocando uma clara antipatização no lugar. Ao espelhar pessoas que cresceram em iguais condições de precarização social que os protagonistas e que ainda assim venceram, o filme tira a potência da fala de Mavela, “minha falta de qualificação está na minha pele preta”, levando por terra todo o discurso do filme. Fica na superfície os extremados atos de cruel violência que todos os personagens cometem aos outros, inclusive a suas próprias origens, em cenas fortes que o filme banca, colocando-os em constante berlinda narrativa.

Repleto de jovens atores com impressionante presença cênica, Black é um excelente cartão de visitas estético de sua dupla de jovens diretores, porém peca ao não tentar compreender todos os lados de uma questão muito mais complexa e ampla de motivações de debates. Ao levar suas qualidades imagéticas a um arsenal de situações esperadas sem contemplá-las de profundidade, o filme perde fôlego na distribuição de suas ações, ao passo que as filma de maneira excepcional. É uma zona de conflito cinematográfico dentro de um projeto que não tem medo do risco, uma posição delicada de assumir diante de uma discussão tão espinhosa.

Um grande momento
O primeiro encontro das gangues, no vagão do metrô

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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