Crítica | Festival

Boy from Heaven

Fantoches

(Boy from Heaven, SUE, FRA, FIN, DIN, ARA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tarik Saleh
  • Roteiro: Tarik Saleh
  • Elenco: Tawfeek Barhom, Fares Fares, Mohammad Bakri, Makram Khoury, Mehdi Dehbi, Moe Ayoub, Sherwan Haji, Ahmed Laissaoui, Jawad Altawil, Ramzi Choukair
  • Duração: 125 minutos

Essa Mostra SP 2022 já me presenteou com uma ou outra surpresa (Vera é uma delas), e podemos dizer que Boy from Heaven está em situação interessante. Não porque apenas não estava entre as minhas certezas qualitativas prévias, mas porque o filme surpreende dentro dele próprio, em um percurso bem curioso de narrativa desconstruída. Não quero dizer aqui que estamos diante de uma produção que merece o que está acontecendo com ela, mas não podemos negar a subjetividade; a discordância faz parte da democracia (lembram dela, aquela mocinha que querem frequentemente acabar?). Mas sim, o filme de Tarik Saleh se baseia em uma ideia já muito batida de cinema narrativo, para nos pegar em uma armadilha bem urdida, igualmente narrativa. 

Saleh tem uma filmografia ainda curta, iniciante, mas já esse ano lançou também outro título muito menos bem sucedido, Contrato Perigoso, mas que poderia sugerir algo de relevante. Esse algo começa a dar as caras aqui, premiado na categoria de roteiro no último Festival de Cannes. Sabemos que premiação alguma é selo de garantia, mas assistir Boy from Heaven é uma experiência de compreensão desse prêmio, que o filme justifica no que concerne explicitamente sua escolha. Ao contrário do que se imaginava, a direção aqui até se eleva, existe um olhar muito peculiar a essa movimentação autoral, mas é o roteiro que realmente chama a atenção no petardo liberado. E isso sim é algo a ser comemorado, tendo em vista as possibilidades claramente evitadas pelo mesmo. 

Boy From Heaven
Cortesia Mostra SP

Travestido de uma espécie de ‘coming of age’ terrorista, aquele tipo de recorte que corre paralelo à trama policial de produções norte-americanas genéricas, Boy from Heaven sabe e quer nos enganar. Sua ideia de colocar em cena um jovem humilde de origem e fabuloso de possibilidades analíticas nos sugere o óbvio – essa criatura sairá de sua zona de conforto para transformar-se em líder criminoso. A inteligência do roteiro em driblar uma comodidade narrativa tão explícita joga a produção em uma espiral de parâmetros refrescantes, cheios de rumos bem mais intrincados do que imaginaríamos. Aos poucos, percebemos que estamos diante de uma trama de intrigas palacianas muito mais próxima de um Ligações Perigosas que de um filme da saga Jason Bourne. 

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Está nessa surpreendente proposta a parte mais substancial dos méritos de Boy from Heaven. Ao contrário do que o próprio filme sugere, não estamos diante de uma produção repleta de ação exótica, mas dentro de um universo intrincado de uma troca de poder política engendrada entre instituições de poder no Egito – o governo, a religião, a educação e as forças policiais. É um amálgama de sugestões narrativas que acabam se fundindo de maneira orgânica, até porque essa intercomunicação corrupta varre as decisões que precisam ser tomadas para uma vala comum comercial. Não estamos diante de uma expectativa natural da ordem das coisas, mas um engendramento de interesses que beneficia tantas pessoas quanto possível, mas que guardam uma solução inusitada para o olhar público. 

Boy From Heaven
Cortesia Mostra SP

A verdade é que os personagens de Boy from Heaven dificilmente escapam da posição de fantoche. A cada nova camada revelada, fica claro de não ser apenas Adam na rota de manipulação coletiva, mas a maior parte dos personagens. Sim, o protagonista da produção é o elo mais fraco da corrente, mas todos em cena estão subordinados a alguém, e estão sendo ameaçados/obrigados a se submeter a outras ordens de desmandos para continuar em suas posições. É um jogo que não se percebe de cara, mas que é apresentado com muita destreza de intenções, revelando os pecados que todos precisam pagar em cena. Como uma grande máquina que não pode deixar de trabalhar, as relações aqui estabelecidas são funcionais e permeadas de interesses momentâneos, nada prontas para um retorno de ambições. 

É dessa fineza que nasce a estranha sofisticação empregada por Saleh em sua obra, que também esteticamente se presta a filmar cada cena com uma pontuação particular, para o ritmo e para a condução. Apesar de não se configurar como um veículo de adrenalina, Boy from Heaven emprega em seu registro características que são comumente atribuídas a um cinema para a massa, como um grau de tensão crescente e movimentação constante dos campos físico e geográfico. São dados que transportam essa produção a princípio banal a um quadro elegante de seu material filmado, que apesar de não apresentar inovações, emprega com qualidade o que foi proposto. 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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