(Café com Canela, BRA, 2017)
Drama
Direção: Glenda Nicácio, Ary Rosa
Elenco: Valdinéia Soriano, Aline Brunne, Babu Santana, Aldri Anunciação, Arlete Dias, Guilherme Silva, Antônio Fábio, Dona Dalva Damiana de Freitas, Michelle Mattiuzzi
Roteiro: Ary Rosa
Duração: 102 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Incrível que um filme sobre algo tão intenso e associado ao negativo como o luto comece tão solar, e assim o seja de muitas formas. Ainda que carregue tintas fortes e escuras, raramente Café com Canela consegue te deixar incomodado, e isso deve ser uma busca do filme e dos seus autores, Ary Rosa e Glenda Nicacio, ambos na estreia em direção. Pelo contrário, a vida quer entrar de qualquer jeito e o jogo dele é com ela, com a luz que entra pela fresta e invade a escuridão. Embora o tanto de luto se espalhe continuamente por sua projeção e provoque algum pesar, é sobre a reconstrução que se debruça essa amorosa produção vinda diretamente do Recôncavo Baiano, com uma vontade rara de retratar, o mais fielmente possível, um lugar sempre atrelado a estereótipos “globais” e se cercar do possível para, não apenas iluminar sua produção por dentro e por fora, como também para respeitar seu lugar, sua gente e sua pluralidade.

Sem ser um filme de episódios ou coral, o longa narra em três frentes formas de lidar com o luto. São pessoas de um mesmo grupo de convivência, que se entrelaçam por conta de suas perdas. Duas histórias são pilares da trama: Margarida e a âncora que a arrasta para baixo, num sem fim de comiseração e abatimento, e Violeta e sua forma intensa e acalorada de viver a vida. A terceira ponta cuida de Ivan, um médico que verá a viuvez arremessar sua vida de cabeça pra baixo. A esse trio se juntam os polos fundidos cena a cena – Margarida tem um ex-marido e uma festa infantil do passado pra chamar de sua; Violeta tem uma avó que precisa de cuidados, marido amoroso e filhos pequenos; Ivan também tem um marido e um cachorro que funciona como o herdeiro que não veio. Violeta ainda lida com um grande trauma do passado, que será revelado aos poucos, e os três terão graduações diferentes para lidar com suas perdas. O filme fala essencialmente disso, na sua espinha dorsal e também em passagens avulsas da trama, como a cena onde o ex-marido de Margarida com os amigos em um bar escuta uma espirituosa história sobre luto.

Glenda e Ary tentam mostrar garra e até alguma experimentação com sua pouca experiência, vindos de um local que tão raro exporta seus produtos ou mostra sua cara na tela grande, literalmente. A força de vontade em estar num lugar relevante e entregar um material para apreciação além de suas cercanias fica clara, e o filme transpira isso como qualidades mesmo. Seu trabalho de direção não tem ambições imensas, mas conseguimos ver que o aprimoramento de seus ofícios não é impossível, dada essa estreia tão cheia de luz, bons sentimentos e acertos emocionais. Ainda assim no entanto, diversos problemas técnicos perpassam Café com Canela, tais como timing de edição, ritmo ligeiramente equivocado (às vezes as cenas parecem corridas demais para uma narrativa naturalista, em outras falta um corte mais seco para impedir que o filme pare de mostrar coisas desnecessárias), áudio bem prejudicado, ora abafado ora agudo demais, numa edição de som bem complicada. A fotografia tem alguma bossa, e a direção de arte é competente e bonita, mas uma trilha por vezes onipresente deveria ter sido evitada.

O roteiro de Ary é também complexo, já que promove mudanças de personalidades, tramas que perdem ou ganham importância dado o interesse do filme, personagens que desaparecem e alguns que existem sem qualquer função. Além disso, o filme conta com cenas inexplicáveis envolvendo coadjuvantes sem interesse algum, como a citada acima com o ex-marido de Margarida. Uma trucagem que deveria ser bacana envolvendo a abertura do filme e o desenrolar do mesmo soa confusa, porque roteiro, montagem e decisões envolvendo passagens de tempo prejudicam o andamento e a coerência. Além de monólogos gigantes envolvendo Margarida e Violeta, não apenas mal escritos e caricatos, como também deslocados. E, enfim, algo grave acontece com uma das tramas que aparentavam ser centrais, o casamento de Ivan e Adolfo. Um casal homossexual no filme é muito bem-vindo e tratado de forma orgânica pelo todo (além de uma belíssima interpretação de Babu Santana como o médico Ivan), mas a partir do momento que um deles falta, o outro perde não somente a função como o espaço e, literalmente, é retirado de cena, para voltar só para encerrar sua trama. Uma triste solução para um tratamento que parecia tão acertado.

A classificação final de Café com Canela soa truncada e errônea, tendo em vista o tanto de problemas que o filme apresenta e carrega em suas estruturas dramática e técnica. Mas é visível o quanto de coração e emoção foi colocado em cada fotograma do projeto, que tem cenas muito bonitas e simples como as que envolvem a avó de Violeta (a que envolve o colo dela é especialmente tocante) e o silêncio de Margarida, impecavelmente vivida pela experiente Valdineia Soriano, que ganhou um merecido prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília, há dois meses. Repleto de falhas para onde se olha, ao final do filme o que fica no peito é Margarida aprendendo a andar de bicicleta, as suculentas coxinhas de galinha de Violeta, a festa na laje onde o afeto é tão presente, a imensa alegria e despojamento de Cidão (uma coadjuvante rouba-cenas), a beleza do amor homossexual maduro e lógico, a curiosidade e o cheiro do tal café com canela, que não é sentido mas ainda impregna na gente. Como fazer então?

Um Grande Momento:
A libertação final de Margarida e a dança do adeus para Valdineia.

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[9ª Semana – Festival de Cinema]