(Cam, EUA, 2018)
Suspense
Direção: Daniel Goldhaber
Elenco: Madeline Brewer, Patch Darragh, Melora Walters, Devin Druid, Imani Hakim, Michael Dempsey, Flora Diaz, Samantha Robinson, Jessica Parker Kennedy, Quei Tann, Linda Griffin
Roteiro: Daniel Goldhaber, Isa Mazzei, Isabelle Link-Levy
Duração: 94 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Cam, novo filme sensação da Netflix, tem uma história banal. Uma webcamer se vê privada de sua conta. Em um mundo guiado pelo virtual, onde toda a vida está em aparelhos telefônicos ou em nuvens de dados de servidores diversos, onde a comunicação e interação são, em sua maior parte, telemáticas, a identificação com Lola, ou Alice, é imediata. Por mais que as personas sejam diferentes e independentes, o que acontece com a personagem é o pânico daqueles que acompanham sua história.

Mas o que interessa no filme está bem além dessa identificação ou da angústia de encontrar-se inacessível para si mesmo, excluído de sua realidade. Por trás dos neons e do pink gritante, de todas as performances elaboradas e do flerte com o horror, estão questões fenomenológicas muito instigantes. Há todo o desenvolvimento de identidades paralelas nestas novas e eletrônicas realidades muito próximo da constituição humana no mundo real.

Com Lola, observa-se uma nova, paralela e tardia tomada de consciência de uma segunda persona de Alice. Desta tomada de consciência surge uma outra identidade. E tudo aquilo que existe para que se chegue ao ponto de reconhecer-se em uma, existe para a outra, em ambiente restrito, com interações diferentes pelo modo como se dão. Em chats e em janelas vizinhas, a alteridade encontra seu outro lugar. Em novas dinâmicas sociais, a consciência do outro e sua influência, seja em gorjetas virtuais ou em comparações com outras webcamers, possibilitam a existência de uma nova identidade.

Por trás da busca por uma melhor posição no ranking, Alice e sua Lola vivem constantemente em um movimento que poderia assemelhar-se ao dépaysement de Voltaire, mas com uma situação de divergências tão agudas entre as identidades, considerando-se a criação natural e artificial de ambas, que é impossível determinar qual dos dois mundos é o estrangeiro. Não bastasse essa deslocalização, o diretor Daniel Goldhaber, que também assina a história ao lado de Isabelle Link-Levy e Isa Mazzei, cria mais uma ruptura.

O desespero não está só no perder o acesso, mas no perder a identidade, aquela que seria uma segunda, artificial, mas já se sobrepõe à primeira. É nessa contradição e, ao mesmo tempo, constatação da insegurança do ser em ambientes virtuais e manipuláveis por terceiros ocultos, que Cam tem os seus melhores momentos. Isso é trabalhado imageticamente muito bem pelo diretor, que usa elementos triviais e batidos, como o espelho, para ilustrar o confronto. Se Rimbaud diz “eu é um outro”, aqui o outro eu é literalmente um outro mais outro ainda.

Porém, embora permita toda essa elucubração filosófica, o filme cumpre uma agenda de intenções mais banais, que vinculam a trama muito mais à abdução e tentativa de retorno de Alice ao lugar que ela sempre quis ocupar. Isso faz com histórias paralelas, interessantes na dúbia constituição identitária mas irrelevantes enquanto desenvolvimento de ação, apareçam deslocadas.

Embora preocupe-se com uma representação mais positiva, o modo como Goldhaber filma as meninas também é por vezes incômodo, menos pelo que busca e mais pelo que pré-determina como ambiente, em cores, sons, sangue e gemidos. Mas nada que seja tão determinante assim. Bem localizado entre a juventude que retrata e com uma nova abordagem do horror, Cam é uma experiência interessante, principalmente por abrir leituras tão mais profundas do que sua suposta superficialidade faria prever.

Um Grande Momento:
O confronto.

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