Crítica | Cinema

Caminhos da Memória

(Reminiscence, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Lisa Joy
  • Roteiro: Lisa Joy
  • Elenco: Hugh Jackman, Rebecca Ferguson, Thandiwe Newton, Cliff Curtis, Daniel Wu, Mojean Aria, Marina de Tavira, Brett Cullen, Natalie Martinez, Angela Sarafyan, Javier Molina, Sam Medina
  • Duração: 116 minutos

Não é todo dia que uma produção cara do cinemão hollywoodiano (cerca de 70 milhões de dólares) resolve homenagear frontalmente um gênero considerado extinto dentro do cinema, o noir. Não seguindo à risca o visual que se espera, essa releitura desloca o gênero dos anos 40 e 50 para um futuro distópico com direito a derretimento das calotas polares que inundou o mundo. Caminhos da Memória é uma produção de risco em qualquer tempo, tendo em vista que os grandes estúdios não investem mais em material original principalmente com tanto dinheiro envolvido; é muita ousadia envolvida em um cenário onde cada vez mais não se pode perder.

Lisa Joy é uma das criadoras de Westworld, tem muita experiência na tv americana, mas finalmente estreia no cinema dirigindo e também assinando a narrativa de um dos longas mais arriscados da temporada. Isso porque o filme não é necessariamente uma aventura vertiginosa de ação non stop, nem veio a reboque de algum material prévio, seja ele livro, HQ, animação ou musical. Hollywood está cada vez mais apostando em uma segurança confortável, e a autora consegue furar esse bloqueio com um romance tradicional invadido por uma trama policial, com direito a femme fatale, detetive amargurado e um mistério indissolúvel.

Caminhos da Memória
© Warner Bros. Pictures

Se a ideia de não se render ao lugar comum fácil que soterra o cinema de grande porte norte americano das duas últimas décadas é muito bem-vinda, o resultado apresentado em Caminhos da Memória é um projeto onde cada centavo gasto está muito claro, porém sua realização é superior a história que está sendo contada, não apenas porque na homenagem a originalidade se perdeu, mas porque ao redor do campo minado está um roteiro que precisaria ser mais bem acabado, com diálogos quase risíveis no terço inicial. O que deveria provocar tensão e ansiedade acaba resvalando no involuntariamente cômico a cada nova troca de ideias entre os personagens.

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É verdade que o filme cresce durante a projeção, e vai angariando simpatia e mais cuidado com o tom apresentado no geral. Mas já se vão longos 40 minutos quando Caminhos da Memória entra em um lugar menos forçado, talvez ao abraçar de vez o exagero e a pirotecnia e esquecer um romance que poucas vezes é credibilizado, o que também prejudica a ideia central do longa; ora, se o casal central não é crível, como comprar a paixão e a angústia vivida por Hugh Jackman? A culpa não é de ninguém do elenco, que tenta reproduzir o que é necessário. Mas com mais uma versão absurda da ‘cena de sexo com roupas’ e uma cena idílica com um diálogo que beira o nonsense, o posterior aumento qualitativo parece não fazer muito sentido a tal altura.

Caminhos da Memória
Foto: Reprodução

Na linha de frente, além de um intenso Hugh Jackman, Rebecca Ferguson (que já esteve ao lado de Jackman antes em O Rei do Show) e Thandie Newton (parceira de Joy super premiada pelo seriado da HBO) tentam dar credibilidade ao seu lugar, mas é Cliff Curtis (que já esteve com Ferguson em ‘Doutor Sono’) quem consegue se sobressair com um personagem vilanesco cheio de nuances e curvas definidas. Sua presença marcante sempre rouba os holofotes mesmo quando não tem texto, e Curtis, tão pouco valorizado pela indústria, consegue cavar um espaço entre atores mais consolidados embora tenha carreira muito mais longeva; se tem alguém que sai de cena presenteado é ele.

Mesmo com uma direção de arte deslumbrante (Howard Cummings, também da equipe do seriado de Joy, e premiado por Behind the Candelabra) e uma fotografia que trabalha o incidir das luzes em cada ator e espaço cenográfico de maneira impressionante, Caminhos da Memória se alonga muito para uma produção que derrapa tanto em seu início, o que talvez deixe claro como mais uma vez talvez Joy se daria melhor com um projeto de longa duração com essa trama, podendo investigar mais as causas e efeitos passados e que servem como um pano de fundo nunca explorado a contento. O filme, uma produção que se vislumbra interessante, acaba mostrando que suas melhores qualidades são estritamente plásticas.

Um grande momento
O piano

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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