(Canastra Suja, BRA, 2016)
Drama
Direção: Caio Sóh
Elenco: Adriana Esteves, Marco Ricca, Bianca Bin, Pedro Nercessian, Cacá Ottoni, Milhem Cortaz, David Junior, Emílio Orciollo Netto, Bruno Padilha, Remo Rocha
Roteiro: Caio Sóh
Duração: 120 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

“A moral é uma, os pecados são diferentes”
Machado de Assis

Dentre temas recorrentes na ficção, famílias disfuncionais ocupam um lugar de destaque. Seja na literatura, no teatro ou no cinema, o adentrar em uma casa e conhecer o que há de inadequado nas pessoas que compõem aquele microcosmo é algo que desperta o interesse naturalmente. Em seu novo filme, Canastra Suja, Caio Sóh não apenas demonstra que tem a consciência dessa curiosidade, como resolve levá-la a outros níveis, fazendo com que em um único espaço vários sejam os desajustes sociais das pessoas que o habitam.

Voltando ao confronto entre o aparente e aquilo que está protegido por quatro paredes, o diretor conta a história de uma família de classe baixa cheia de problemas velados. O pai é porteiro de um condomínio de luxo e alcoólatra, e a mãe, uma dona-de casa que passa os dias cuidando da filha caçula autista e tendo encontros sexuais com o namorado da filha mais velha. Esta, por sua vez, está sempre se insinuando para o chefe pensando em vantagens, enquanto o irmão não quer nem pensar em trabalhar e estudar. Em uma única formação familiar, Sóh, que assina também o roteiro, excede-se na quantidade de desvios e foca na construção de relações adoecidas, algo que não se sabe se acontece como causa ou efeito.

Se o conteúdo lembra Nelson Rodrigues, a forma remete a John Cassavetes. Planos longos e câmera na mão aproximam e causam incômodo ao acompanhar, de maneira não passiva, o interagir dos personagens. A busca pelo naturalismo é evidente e é daí que surgem interpretações seguras e marcantes do quinteto Marco Ricca, Adriana Esteves, Bianca Bin, Pedro Nercessian e Cacá Ottoni.

Com habilidade, o desenvolvimento da trama procura sempre contrariar expectativas. As situações direcionam ao inusitado, num constante jogo de percepções e preconceitos que transcende a tela e só funciona com esta interação subjetiva com o público. Nesse exercício sociológico está a força do longa-metragem. Há o foco em uma degeneração que, não bastasse estar explícita na tela, só se confirma graças ao grupo de códigos sociais pré-estabelecidos que opera longe dela. São como realizações intrínsecas aos meios morais que cercam os personagens e os espectadores. Mais do que a identificação, que, dentre tantas falhas expostas, vai acontecer, é o julgamento exterior e aquilo que está por trás dele que se atinge.

Porém, embora busque estimular a percepção e consiga manter-se isento nas muitas rupturas que causa, o social e o humano, obviamente, não deixam de existir na própria concepção da obra. Alguns equívocos fazem com que as mesmas barreiras e prejulgamentos estejam evidentes em tela, principalmente nos momentos em que se alcança um humor pouco pertinente ou no final, nitidamente mais fraco. A busca por esse desbravamento moral, nesses momentos, não existe sem que as próprias posições expostas estejam contaminadas pela consciência social previamente construída.

Ainda que tenha limitações e imprecisões, Canastra Suja alcança o seu objetivo e consegue, dentro de um tema tão recorrente, diferenciar-se pelo modo como, mesmo no excesso, estabelece um vínculo real com quem o assiste. Eis aqui um jogo interessante de ver o outro com lentes morais que nem sempre são conscientes, mas nunca deixarão de estar ali.

Um Grande Momento:
O confronto na cozinha.

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Crítica publicada originalmente na revista Lume Scope.