(Safari, AUT, 2016)
Documentário
Direção: Ulrich Seidl
Roteiro: Veronika Franz, Ulrich Seidl
Duração: 91 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

O ser humano é uma espécie que realmente não deu certo. Essa é a constatação que fica após Safári, novo filme de Ulrich Seidl, que acompanha austríacos e alemães ricos em um clube de caça na África. Donos dos locais e turistas falam sobre suas experiência de caça, destacando o prazer sentido ao matar animais selvagens, muitos deles ameaçados de extinção.

Embora apenas documente sem intervenção o absurdo, o tom do longa-metragem é o de crítica. O modo como organiza os depoimentos dos caçadores, que discorrem sobre armas e os animais que sonham em matar, e as imagens da caçadas é pensado para demonstrar o absurdo e a crueldade de tudo o que se vê, chegando a despertar o nojo visceral em muitos momentos. Um especificamente, em que uma girafa agoniza diante de seus algozes, é daqueles que não sai da cabeça mesmo muito tempo depois do filme acabar.

Seidl, documentarista habituado em buscar o que há de podre no humano, transcende o mal-estar causado pelas caçadas em si e aborda a relação dos estrangeiros com os nativos, acessórios na busca, mas fundamentais no tratamento dos animais mortos. Ele não só contrapõe a pobreza da região às locações decoradas dos depoimentos, como faz questão de mostrar a relação dos serviçais com os animais caçados. São cenas explícitas visualmente, como a de negros expostos diante paredes tomadas com cabeças de animais mortos ou na limpeza das peles que serão levadas como “prêmio”; e textualmente, com os depoimentos de brancos sobre as qualidades físicas de seus empregados.

Passar por Safári é uma tarefa penosa, de embrulhar o estômago. E é impossível não pensar na relação do próprio diretor com tudo aquilo que filma. Entende-se o intuito, percebe-se a necessidade da denúncia, mas é difícil saber até que ponto o sadismo de Seidl não toma as rédeas daquilo que está sendo visto. Até que ponto o que se vê não abandona o seu caráter primeiro e volta-se à polêmica pouco frutífera?

Mesmo tendo seus problemas éticos, Safári traz a sua mensagem e é devastador perceber que aquilo que se vê é uma realidade e que há pessoas que pagam – muito caro – por isso no mundo, num movimento contínuo de tentativa de manutenção de uma superioridade inexiste. Aquele ato de disparar contra um animal que não pode se defender e o prazer que ele traz aos atiradores, além da invisibilização de toda uma população local se complementam na nocividade e degeneração dessas pessoas.

O retrato de uma sociedade doente, onde seres humanos têm muita coisa, menos humanidade.

Um Grande Momento:
A empregada e a parede.

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