Crítica | Streaming

Cats

(Cats, GBR/EUA, 2019)
Musical
Direção: Tom Hooper
Elenco: Francesca Hayward, Taylor Swift, Laurie Davidson, Robbie Fairchild, Idris Elba, James Corden, Rebel Wilson, Judi Dench, Jennifer Hudson, Mette Towley, Ian McKellen, Naoimh Morgan, Jason Derulo, Ray Winstone
Roteiro: T.S. Eliot (livro), Andrew Lloyd Webber (musical), Tom Hooper, Lee Hall
Duração: 110 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

Quando levou Cats aos palcos Andrew Lloyd Weber inovou em vários aspectos. O musical era composto por poemas musicados por ele de seu livro favorito na infância, “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Elliot. Não havia, então, a tradicional estrutura de diálogo, mas passagens musicais. Weber deu um jeito de organizar tudo isso e transformou em um dos espetáculos de maior sucesso da história, em cartaz há quase 40 anos e com vários prêmios no currículo, tanto na Inglaterra quanto na Broadway.

A montagem, porém, já não era uma unanimidade e, embora tenha seus méritos inegáveis, principalmente pela mescla de vários estilos musicais no concurso dos Jellicles pela vaga ao novo recomeço, Cats era um musical já maior por sua história e por sua principal música – “Memory”, a única inspirada em um dos poemas e não musicada – do que por si próprio, diferente de outros que tiveram tanto tempo em cartaz.

Mas acharam por bem trazer aos cinemas, ignorando não só esta não unanimidade como o princípio básico da diferença entre os meios. Há coisa que acontecem no teatro musical que não podem acontecer no cinema, simples assim. Quando o público de uma peça entra no teatro e “compra” aquela realidade, aceita aquele “pacto”, aquilo é bilateral e não é igual no cinema ou em qualquer outro produto audiovisual.

Já tivemos gatos vários por aí, animados, que confirmem a viabilidade do meio: os Aristogatos, a turma do Manda Chuva ou mesmo Tom. Para ficar entre os felinos, temos o pessoal do Simba, o do primeiro Rei Leão. Lembram da confusão com o segundo? Está exatamente no mesmo lugar. A relação com o produto audiovisual. A relação com a animação, em suas possibilidades antropomórficas e dismórficas permite o impossível, o fantástico. Algo esperado ali no “pacto” com o espectador. Quando se busca o realismo isso se quebra.

É possível dizer que isso não está em Cats. Mas está e está da pior maneira possível. Os gatos têm um corpo meio humano meio de gato, uma coisa no meio do caminho, mas tem rostos de pessoas. Rostos de pessoas, orelhas e bigodes, algo muito perdido entre o bizarro e o tosco. Não são humanos vestidos de bichanos. Seria melhor. Não são animações de felinos. Seria melhor. É uma coisa que tenta ser os dois e não consegue.

Esse estranhamento faz com que o filme torne-se ainda mais distante. Os personagens vão aparecendo, assim como algumas interações aqui e ali, mas nada chama realmente a atenção. Até mesmo os grandes momentos do musical se destacam pelos motivos errados na versão cinematográfica, como pelos efeitos visuais para as coreografias.

E olha que não foi por falta de empenho em fazer um bom filme. Tom Hooper fez questão de trazer um elenco interessante para sua versão, com direito a Ian McKellen, James Corden, Idris Elba, Ray Winstone, Rebel Wilson e Judi Dench, que dá vida à Velha Deuteronomy, uma gata fêmea nesta versão. Grizabella, infelizmente, ficou para Jennifer Hudson, que continua com todos os seus cacoetes e sua mania de cantar gritando. Mas todos se esforçam de verdade para que tudo saia bem, assim como os novatos Taylor Swift, Francesca Hayward, Laurie Davidson e Robbie Fairchild.

Só que com esse corpo estranho e essa cara de gente, computadorizado e esquisito assim, não vai rolar. Desculpa.

Um Grande Momento:
Quando acaba.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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