Crítica | Cinema

Charuto de Mel

Jogo de contradições

(Cigare au miel, FRA, ALG, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kamir Aïnouz
  • Roteiro: Kamir Aïnouz, Marc Syrigas
  • Elenco: Zoé Adjani, Amira Casar, Lyès Salem, Louis Peres, Idir Chender, Axel Granberger, Jud Bengana
  • Duração: 100 minutos

Como se comentasse as contradições pelo qual o ser feminino precisa passar diariamente, durante a vida, em momentos particulares ou públicos, Charuto de Mel, filme que esteve no Festival de Cannes desse ano e estreia essa semana, é uma produção de estreia que tem uma voz delicada por trás de seu olhar, mas que acaba por refletir mais o coletivo do que o íntimo, inclusive em sua própria seara cinematográfica. Se o desejo de sua realizadora era emular as ânsias de várias gerações, de suas inúmeras versões de implicações sociais, o acerto foi alcançado – o filme transborda a delicadeza das descobertas e o fim de um tempo de idílio etário para o feminino.

Kamir Aïnouz, diretora estreante mas já testada antes como roteirista (Lola), é meia-irmã de Karim Aïnouz, e ao contrário do seu já consagrado irmão, ela estreia já estabelecendo um olhar para a própria pátria, o lugar que é acessado por locais, por descendentes e por quem escolheu o refúgio longe. A Argélia, que é o berço dela, está apenas no terço final em suas imagens físicas, mas está desde o início organizando a mentalidade de seus personagens, que precisam obedecer a padrões pré-estabelecidos pelos ancestrais, ainda que seu envolto seja cercado de modernidade, com um certo preço a ser pago.

Charuto de Mel
Divulgação

Quem traz esse olhar do futuro ao filme é Selma, uma jovem que se encontra na reta final da adolescência, prestes a fazer escolhas definitivas. Seus pais também querem que ela faça escolhas definitivas, ainda que seus teores não possam ser mais apartados. Selma é uma mulher do nosso tempo, que experimenta bebida, cigarro, experimenta o sexo, experimenta os beijos, se entrega com paixão ao momento agora. Como a fina flor da juventude prega, só o imediato tem alguma valia, e como repassar essa ideia de liberdade aos pais, é algo que a protagonista não está muito interessada em fazer, mas dá gosto de vê-la experimentar tudo que tem direito.

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A base de saída de Charuto de Mel não é muito original, mas sua realização poderia ser ao movimentar o choque entre esses dois mundos. Ao invés disso, e de filmar o furacão de novidades que ultrapassam na protagonista e em sua mãe ao ser atingida por suas ondas, o filme aposta nessa difusão de acontecimentos que muitas vezes se auto anulam, e despem de personalidade suas personagens. Mesmo em um universo repleto de desejos de experiências novas que apresentem novas possibilidades, precisa acontecer certa coerência de decisões, com algum tempo possível para que compreendamos a absorção de suas curvas em cada um dos tipos filmados.

Charuto de Mel
Divulgação

O que acaba ocorrendo é um filme agradável, porém já visto tantas vezes, onde a porção identitária parece estar deslocada, tendo em vista que seus personagens mudam de ideia a cada cena, apresentam camadas disparatadas umas em cima das outras, e não ocorrem muitas consequências às suas mudanças, como se tudo fosse permitido. No que concerne Selma especificamente, essa até é uma qualidade, tendo em vista o sistema de rolo compressor pelo qual ela atropela a vida; a ela não é legado nada, de bom ou de ruim, apenas o aprendizado. Mas quando isso atinge também seu entorno, acaba por diminuir a frequência narrativa do todo.

Sem diminuir a suave denúncia que faz a respeito das tradições sobre o corpo feminino, e as consequências para gerações passadas e futuras para esse mesmo corpo no exato momento de sua transformação, Charuto de Mel não consegue ir muito além do que outras cineastas já fizeram, mas ainda incomoda. Como é uma questão ainda não superada nem absorvida pela sociedade ou pela fricção que é acionada entre as novas e anteriores gerações o filme se faz pertinente, ainda que seu teor seja continuamente apresentado, em cinemas ainda mais ambiciosos.

Um grande momento
Zombie

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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