Crítica | Cinema

Pixinguinha – Um Homem Carinhoso

Intenção de carinho

(Pixinguinha, Um Homem Carinhoso, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Denise Saraceni, Allan Fiterman
  • Roteiro: Manuela Dias
  • Elenco: Seu Jorge, Taís Araújo, Ana Paula Bouzas, Agatha Moreira, Klebber Toledo, Milton Gonçalves, Tuca Andrada, Pierre Baitelli ... Radames Pretinho da Serrinha Pretinho da Serrinha
  • Duração: 101 minutos

A vida de Pixinguinha, apelido ganho desde criança por Alfredo da Rocha Vianna Filho, finalmente chega às telas na estreia na direção de longas de Denise Saraceni (e codireção de Allan Fiterman), e o melhor que poderia nos oferecer é trazer para o grande público a importância universal de um dos maiores artistas de nossa História, que construiu pontes para que tantos viessem seguinte a ele. Um nome que com toda certeza não caiu no esquecimento, mas que Pixinguinha – Um Homem Carinhoso torna a jogar luz sobre, o que é bem vindo diante das características do Brasil, país tão propenso ao esquecimento. Uma obra de audiovisual enfim o imortaliza.

Saraceni se consagrou na tv, dirigindo algumas obras clássicas da teledramaturgia, como Torre de Babel, Da Cor do Pecado e principalmente Cheias de Charme, entre outras. Sua estreia no cinema, ao contrário do lugar de ousadia onde se consagrou na telinha, encontra um terreno seguro demais, uma típica biografia chapa branca que não ofende a memória de nenhum envolvido, mesmo deixando escapar aqui e ali a personalidade de seu homenageado, que tinha seus defeitos, mas que aqui são varridos para debaixo do tapete e traduzidos de maneira graciosa pelo roteiro, que o acarinha até não mais poder.

Pixinguinha - Um Homem Carinhoso
Páprica Fotografia

O roteiro é assinado por outra mulher também consagrada na TV, Manuela Dias, autora de Amor de Mãe, Justiça e de uma belíssima adaptação de “Ligações Perigosas”. Aqui, não é sua culpa que a obra pareça tão pálida e com pouco carisma; a estrutura segue o padrão base desse tipo de cinebiografia, saltando tempos para dar conta de uma existência que um filme não captura de maneira sedutora um homem dessa envergadura. O que vemos é aquela tradicional visão limitada a grandes acontecimentos, momentos-chave que podem ser o ápice de alguém, mas que nunca conseguem resumir uma figura histórica.

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A saída para uma biografia sempre é centrar sua narrativa em uma passagem específica e deixar aflorar ali as contradições e idiossincrasias de seu personagem central, e isso infelizmente não é feito em Pixinguinha. O trabalho de Saraceni, no entanto, é elevado no que concerne sua beleza estética, a adequação de seus planos, o olhar para cada construção imagética, captados sempre com muito rigor. Sabendo exatamente o impacto conseguido pelo material à sua disposição, a diretora não se resume a conseguir uma linguagem puramente televisiva em seus enquadramentos, realizando cinema.

Pixinguinha - Um Homem Carinhoso
Páprica Fotografia

O filme parece nem tentar organizar um pensamento em torno do racismo que o artista sofreu, porque mesmo esse conflito é pincelado de leve e logo esquecido. Como dispensando seus conflitos, Pixinguinha observa inúmeras interjeições narrativas que poderiam fazer crescer sua estrutura engessada, mas a escolha principal é transformar sua narração em um palco de alegrias, com algum azedume pontuado com muita moderação. Pra isso, o material de arquivo inserido ao longo do corpo fílmico faz muito melhor em nos deixar sensíveis ao olhar singelo de um homem que produziu uma música à frente de seu tempo.

Infelizmente não é o suficiente para que o projeto tenha relevância que ateste suas qualidades cinematográficas. A despeito do bom emprego dos talentos de Seu Jorge, Taís Araújo e Dan Ferreira, nem mesmo os protagonistas são capazes de encapsular um pouco de suas intenções dramáticas a um projeto cuja moldura é tão repetitiva a ponto de criar cansaço, deixando antever ‘barriga’ a uma produção de pouco mais de 1 h e meia de duração. A nova geração pode enfim conhecer o tamanho de Pixinguinha, mas o cinema fica devendo a um dos maiores compositores da nossa música um tratamento diferenciado para alguém que colocou nossos acordes ao redor do mundo.

Um grande momento
As teclas brancas e as teclas pretas

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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