Crítica | Festival

Clara Sola

(Clara Sola, SWE, CRC, BEL, ALE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Nathalie Álvarez Mesén
  • Roteiro: Maria Camila Arias, Nathalie Álvarez Mesén
  • Elenco: Wendy Chinchilla Araya, Daniel Castañeda Rincón, Ana Julia Porras Espinoza, Flor María Vargas Chaves
  • Duração: 106 minutos

Clara Sola é um filme obcecado com imagens de limitação e aprisionamento. As fitas roxas usadas pela mãe para determinar até onde a protagonista Clara (Wendy Chinchilla Araya) pode ir ao sair de casa. Os insetos aprisionados por ela em redomas de copos e vasilhas. O próprio corpo da personagem principal, com a deformidade na coluna que sua mãe recusa a operar, que aprisiona o desejo e a plenitude da mulher que Clara deseja ser.

A câmera da diretora de fotografia Sophie Winqvist, porém, rejeita toda e qualquer limitação. Ela coloca o espectador bem ao lado da protagonista, com enquadramentos desconfortavelmente próximos e inusitados, que fazem o público enxergar o mundo pelo peculiar ponto de vista da personagem. É como se a câmera quisesse tocar Clara. Porque a personagem toca a todos: é uma espécie de curandeira, que a mãe beata (Flor María Vargas Chavez) vende como uma “reencarnação da Virgem” capaz de ajudar doentes e sanar males. Mas quem a toca?

Clara Sola
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema @Sophie Winqvist

Clara deseja ser tocada. Ela toca a si mesma, ensaiando gestos masturbatórios enquanto vê novela com a sobrinha María (Ana Julia Porras Espinoza). Por isso, sua mãe faz com que ela passe pimenta na ponta dos dedos, na tentativa de queimar o “pecado” e o desejo latente da filha. Mas as necessidades sexuais de uma mulher adulta, próxima dos 40 anos, não podem ser contidas, então elas são direcionadas para Santiago (Daniel Castañeda Rincón), jovem recém-contratado para ajudar com os animais da fazenda no remoto interior da Costa Rica onde a família da protagonista vive.

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É esse desejo que desperta em Clara de ser uma mulher completa, plena de corpo e alma, e não apenas o espírito eunuco e castrado que a mãe tenta fazer dela, que conduz o filme da cineasta costa-riquenha Nathalie Álvarez Mesén. Em seu primeiro longa, a jovem diretora aposta em uma série de simbolismos – água, fogo, corpo, alma, natureza, religião… – sem medo de correr riscos, de tomar as decisões menos óbvias, e entrega uma produção original e sensualmente hipnotizante.

Uma dessas subversões está exatamente na relação entre fogo e água. Se o desejo é geralmente representado pelo primeiro no cinema, em Clara Sola, ele serve apenas para queimar e punir a protagonista. O toque que a personagem tanto deseja só virá pela primeira vez ao imergir na água fria que vai, de certa forma, aplacar o calor úmido da América Central e dar a ela um prazer até então desconhecido em uma das sequências mais bonitas do longa. A jovem María pode ser quem ganha a tradicional festa de 15 anos, mas quem se torna (plenamente) mulher no filme é Clara. 

Clara Sola
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema @Sophie Winqvist

Há ainda um cavalo, símbolo surrealista por excelência, que representa o desejo de liberdade e o espírito selvagem, mais próximo da natureza que da religião, da protagonista. “Selvagem”, porém, não quer dizer irracional. Apesar do roteiro nunca diagnosticá-la, Clara parece ter um grau leve de autismo, exacerbado pela falta de cuidados adequados e pelo beatismo repressor da mãe. Ainda assim, Mesén deixa bastante claro que a personagem sabe o que quer e entende seu desejo. Mesmo tratada como uma criança pelos demais personagens, ela é provavelmente mais inteligente que todos ali, apenas limitada por uma situação adversa – nada sutilmente sintetizada pelo isolamento do sítio da família.

Por sinal, esse misto de controle e uma explosão prestes acontecer – encarnado com perfeição pela assustadora performance da bailarina Wendy Chinchilla Araya, estreando no cinema – é um espelho da própria direção de Mesén. Da naturalidade que extrai de seu elenco, construindo uma família real e complexa, à competência que explora as belas locações tanto nas imagens quanto no som apoiada por uma equipe quase toda de mulheres, passando por uma referência/homenagem a Carrie, a Estranha, a cineasta cria uma obra sensual que surpreende e provoca até a última cena. Um filme de estreia arriscado e imprevisível, cujas (muitas) escolhas ousadas podem não agradar a todos, mas que a jovem costa-riquenha conduz com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo – e não tem medo disso.

Um grande momento
Clara e Santiago entram no rio, passando dos joelhos

O crítico viajou a convite da 66ª Semana Internacional de Cine de Valladolid

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Daniel Oliveira

Daniel Oliveira é mestrando em Cinema pela Universidade da Beira Interior e crítico autoexilado, filiado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e à Fipresci. Aguarda ansiosamente o meteoro, ou o reboot da civilização dirigido por alguém que não seja homem, branco e/ou hétero.
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