Crítica | Festival

Coda

Drama, romance e música

(Coda, USA, 2021)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Sian Heder
  • Roteiro: Sian Heder
  • Elenco: Emilia Jones, Eugenio Derbez, Troy Kotsur, Ferdia Walsh-Peelo, Daniel Durant , Marlee Matlin
  • Duração: 111 minutos
  • Nota:

Coda em italiano significa cauda e, quando na linguagem musical, em uma partitura, marca o final de uma música. No filme da diretora Sian Heder (Tallulah), o final da música internalizada e silenciosa da vida de Ruby para o começo de uma outra completamente diferente. Única que ouvia e falava em uma família de surdos, ela passou sua infância e adolescência como intérprete dos pais e do irmão, até que, interessada por um colega da escola, decide se inscrever no grupo do coral e vai cantar para os outros ouvirem.

Coda

O que se encontra em Coda é exatamente aquilo que se espera de um coming-of-age com drama, romance e música. O roteiro, também de Heder, é inspirado no longa francês A Família Bélier e precisa recorrer a várias facilitações e os acontecimentos podem ser telegrafados logo nos primeiros momentos, mas o filme acaba se beneficiando do carisma do elenco, em especial de Emilia Jones (de Nuclear) que dá vida à protagonista, e da bem escolhida trilha musical, muito bem pontuada com canções reinterpretadas de Joni Mitchell e Marvin Gaye.

A ideia de trazer essa contraposição música-surdez é muito interessante, mas o filme acaba se distraindo com tantas outras subtramas a que se dedica pelo caminho. Há muitos elementos que podem ser trabalhados, como o desenvolvimento da fala em alguém que não tem com quem praticar em sua primeira infância, visto que o estímulo é fundamental para isso; a percepção dos graves por aqueles que não escutam; o preconceito da sociedade e a falta de acessibilidade no dia a dia, e isso está no filme, em lampejos, sem tempo hábil para aprofundamentos.

Coda

A questão da mãe, vivida por Marlee Matlin, que nunca pôde conhecer ou perceber o dom da filha, por exemplo, é muito boa e talvez seja um dos pontos centrais da trama, mas só aparece tarde demais, depois de muitos acontecimentos, cenas de pescaria, reunião de sindicato e romance juvenil, sem esquecer as delongas em picuinhas colegiais e brigas de bar. É como se Heder quisesse falar de tudo ao mesmo tempo e faltasse espaço para tanta coisa, então, entre o drama, o musical e o humor nem sempre bem pontuado, o filme acaba perdendo parte de sua essência.

Porém, ainda há bons momentos, como o bonitinho dueto de costas com Jones e Ferdia Walsh-Peelo ou o inspirado clímax do filme, quando pela primeira vez a diretora usa com eficiência o som para construir uma cena. Com seus acertos pontuais, fofo e bem intencionado, Coda é um filme que cumpre o seu papel de passatempo, mas não vai e nem parece ter a intenção de ir muito além disso.

Um grande momento
O pai percebe.

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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