Crítica | Streaming

Como Seria Se…?

(Look Both Ways, EUA, 2022)
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Wanuri Kahiu
  • Roteiro: April Prosser
  • Elenco: Lili Reinhart, Danny Ramirez, Aisha Dee, Andrea Savage, Luke Wilson, Nia Long
  • Duração: 110 minutos

Estamos passando por um momento em que os multiversos e as realidades paralelas estão em alta. São dezenas de produções que abordam o tema de alguma maneira, seja em viagens entre mundos ou destinos que se alteram com intervenções aleatórias. Há um outro tipo de pensar em realidades alternativas que faz muito sucesso no cinema: aquele em que um evento é capaz de mudar toda uma vida e as alternativas se contrapõem em tela. Embora às vezes apareça um anjo, uma fada, um mendigo ou qualquer coisa que o valha para mostrar tudo o que o protagonista perdeu, nem sempre a personagem sabe que sua vida seria completamente diferente caso não pegasse um avião para a faculdade de Direito, rebatesse uma bola de beisebol ou saísse alguns minutos mais cedo para ajudar o namorado. Já ao espectador são mostradas as duas ou mais realidades e possibilidades. 

Filmes com saltos no tempo são bons nessa brincadeira de realidades alternativas, os que se transformam, como Corra, Lola, Corra e até mesmo toda a trama de George e Biff em De Volta para o Futuro, ou aqueles que criam magicamente um novo universo, como a comédia romântica De Repente 30. Já outros, e aqui temos filmes de todos os gêneros e para todos os gostos, apostam no cruzamento de versões do passado e do presente, que muitas vezes convivem e trocam experiências, como Looper, A Dona da História, Duas Vidas, O Homem do Futuro. E há, como em Como Seria Se…?, a concretização da suposição e aquela coisa bem simples de um evento que se desenrola em dois caminhos que não precisam se encontrar.

Dirigido por por Wanuri Kahiu, do ótimo Rafiki, o filme conta as histórias de Natalie. Em uma, o teste de gravidez feito na festa de formatura é positivo; na outra, negativo. A pegada pop e o elenco, encabeçado pela estrela de Riverdale Lili Reinhart deixa evidente qual é o público desejado. Porém, embora siga uma trilha bobinha e recheada de marcas de um cinema juvenil de apreensão fácil e pouca profundidade, há coisas interessantes na trama do longa. O filme estabelece duas vidas possíveis àquela mulher, ressaltando uma limitação ao gênero que surge quando um mais aparece em um bastão de plástico. Aquilo que surge como um claro sinal de machismo, inclusive da própria produção, vai se transformando.

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Um aparte aqui para falar que, por mais que corra e fuja, ele está ali na estrutura e na base, mas a intenção do filme é exatamente combatê-lo. Isso está no gesto dos pais (ótimos, alias, vividos por Andrea Savage e Luke Wilson) quando impedem a proposta e no caminho de independência trilhado por uma delas, mas falta na ainda persistente necessidade do amor romântico e na culpa materna. Em Como Seria Se…?, a grande sacada, o grande ponto na comparação entre as duas vidas de Natalie e os caminhos muito diversos que elas assumem a partir de um simples evento, mesmo que os encontros se repitam em realidades diferentes, é como um deles não acolhe a mulher em sua versão mãe.

Não que a personagem não seja feliz, não tenha apoio, e até mesmo o amor aconteça. A questão em Como Seria Se…? é que Natalie é obrigada a abrir mão de seu futuro e seus sonhos porque, se o mercado de trabalho já não é muito amigável com as mulheres, o mundo, de maneira geral, é um lugar hostil para as mães. Não há uma estrutura logística para que as mulheres comecem suas carreiras enquanto amamentam, por exemplo. Em uma sociedade patriarcal, cheia de imposições – principalmente àquelas que têm filhos – e que se estabelece sob o manto da culpa cristã, aquele resultado na festa determina possibilidades de experiência. As duas versões de Natalie chegarão ao mesmo lugar, ambas com suas próprias histórias para contar, mas uma terá o seu sonho impossibilitado. Viverá uma outra coisa, chegará lá, mas sem romper laços que poderia ter rompido, sem estabelecer outros contatos e sem trilhar caminhos para além daquilo que conhecia.

Um grande momento
Impedindo o pedido

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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