Crítica | Catálogo

Maior Que o Mundo

Fricção boêmia

(Maior Que o Mundo, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Roberto Marquez
  • Roteiro: Reinaldo Moraes
  • Elenco: Eriberto Leão, Luana Piovani, Maria Flor, Gabi Lopes, Giovanni Venturini, Lucas Miagusuku, Carolina Miranda, Eduardo Parisi, Gabriel Godoy, Otto, Fernanda Young
  • Duração: 96 minutos

Filmado há quatro anos atrás, ninguém pode acusar Maior que o Mundo de não ser um filme singular dentro de nossa filmografia. Vem sendo vendido como uma homenagem ao cinema da boca do lixo, ali situado entre os anos 70 e 80, mas não sei se essa intenção se faz clara, ou se é propositada. Tenho a impressão que a vontade é de ser um proposta híbrida, entre o carinhoso, o saudosista e o onírico, na hora de destrinchar um sentimento premente. Quase como uma elegia a uma espécie de hedonismo barroco e underground, o filme quer se arvorar pelos escombros de uma sociedade curiosa que ainda vive pelo Baixo Augusta e adjacências, em São Paulo. Não há muita responsabilidade em torno dos desejos dos personagens, eles somente querem vivê-los com leveza e alguma inquietação.

O filme é a estreia na direção de Roberto Marquez baseado em livro de Reinaldo Moraes, autor respeitado com uma obra robusta. Tanto a ideia original quanto o olhar de Marquez trafegam por esse lugar de reimaginar a boêmia por um viés não apenas romântico, mas com uma liberdade que está em vias de extinção para todo o resto, não para quem a vive e acredita nela. Neste lugar, o filme passeia com alguma propriedade por essa zona neutra de julgamentos e funções; embora exista uma paternidade clemente em cena, nada está posta de maneira doutrinária. São os personagens e suas escolhas que movem o filme, seus erros não são esquecidos e geram consequências graves, mas eles seguem movendo-se ao largo do que é esperado pela normatividade.

Maior Que o Mundo
Flavia Montenegro

Não dá, no entanto, para ser permissivo com o que Maior eu o Mundo apresenta, em seu recorte cinematográfico. Não é o fato de pregar um lugar de possibilidades irrestritas ao filme porque ele entende sua comunicação com o público por uma vertente menos fechada; apesar de sua vocação para a anarquia sensorial, o longa emperra. As descontinuidades do roteiro, que vai de saltos em saltos para contar uma história que ficamos sem entender se é diária ou não, é uma das questões que o filme deixa a cargo da suspensão da descrença. O problema é que essa fruição não é comunicada à estrutura de seus eventos, que parecem caminhar com dificuldades junto a essa liberdade cênica. Em quanto tempo se passa a ação do longa, jamais saberemos… mas dá a impressão que o terceiro livro de Kabeto é escrito e publicado em menos de uma semana.

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Os próprios tipos criados também carecem de uma substância mais duradoura, que nos faça justamente comprar os propósitos que o filme tenta nos vender. Sem criar maiores nuances daquelas relações, sem pormenorizar cada um dos contatos tácitos dispostos ali, o filme corre o risco de naufragar. Não é um pedido para dissecar o roteiro até as raias do didatismo, mas de contextualizar o espectador não no passado dos seres daquela fauna, mas sim do seu presente – o que querem Kabeto, Mina, Audra, e outros, além de desfrutar do grande vazio da existência com o máximo de prazer e o mínimo de responsabilidade? Quando uma fatalidade enfim acontece, o filme recorda a todos em cena o clichê dos clichês: toda ação tem sua reação. O desespero apresentado por eles nos acachapa, mas não nos coloca a par dos motivos reais de seus sentimentos.

Maior Que o Mundo
Divulgação

Além de Kabeto, o protagonista vivido por Eriberto Leão, outro personagem descolado daquelas relações parece o mais pleno em cena. Altair, personificado pelo dínamo Giovanni Venturini, é o catalisador de todos os acontecimentos da produção, mesmo antes de entrar em cena. É graças a ele que todas as molas serão disparadas, movendo as peças de um tabuleiro cujo jogo estava parado e todos agradeciam por isso. O filme estreia no grande momento da carreira de Venturini, que é o protagonista do Big Bang de Carlos Segundo, que acabou de ser premiado em Locarno. Aqui, o ator mostra as ferramentas que ainda irão encantar muitas outras plateias; sua capacidade de sedução é avassaladora, e seu tipo passeia por Maior que o Mundo domando todos à sua volta e saindo ileso de qualquer problema. Talvez sua entrega seja até responsável por percebermos o quanto o filme deixa a desejar em outros aspectos, porque no que compete a ele e seu desenvolvimento, tudo está em perfeitas condições.

É uma experiência tão surreal quanto válida a que Marquez nos oferece, uma iguaria de problemas visíveis mas que não deixa de inquietar. Parece um material inacabado, cheio de arestas para aparar, mas que tenta a todo custo respirar dentro de uma inércia que ele mesmo escorrega. É um movimento de se debater contra o que está estabelecido, e buscar uma forma de se relacionar com o cinema distante do que está sendo produzido. É desejar para que sua vontade de arranhar o quadro com as unhas se afie mais, e da próxima vez consiga acertar o alvo sem flechar alguns espectadores pelo caminho.

Um grande momento
O sequestro e a iluminação de LED

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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