Crítica | Streaming

Companhia das Focas

Alguém não viu o tempo passar

(Seal Team, RSA, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Greig Cameron, Kane Croudace
  • Roteiro: Greig Cameron, Brian Cleveland, Jason Cleveland, Wayne Thornley, Paul Ian Johnson, Phil Lorin, Anthony Silverston
  • Duração: 98 minutos

Há algo de incômodo em Companhia das Focas ou em qualquer produto que aposte na militarização para provocar o entretenimento infantil. A animação, que é uma coprodução África do Sul e Estados Unidos, não tem apenas algum ou alguns personagens com traços militares como outros filmes do gênero, é completamente sobre isso. E tudo começa com um trocadilho — que vai se desdobrar em muitos. No original, o nome do longa é Seal Team, e seal é foca em inglês, mas também, numa abreviatura de SEa, Air e Land, é como se chama um soldado da unidade de elite da marinha estadunidense. Como se não fosse o bastante, ainda tem ali no meio o personagem Seal Seal, uma foca cantora, dublado pelo cantor Seal e um golfinho (dolphin em inglês) chamado Dolph dublado por Dolph Lundgren.

O universo de marketing pró-bélico já está no prólogo, que apresenta a história do sargento Claggart, papel onde, pelo menos nesse primeiro momento, o que existe é uma mera substituição — quando se troca a espécie mas se mantém todos os elementos humanos. São dados que levam a um tipo de fantasia muito específico, que nem sempre agrada a todos e de caráter confuso. Há um lado lúdico, engraçado e bobo, mas, ao mesmo tempo, uma movimentação militarizada, de missão e salvamento que remete a um tipo de mensagem que já não faz sentido, ou menos não deveria fazer. É como ver um roteiro dos anos 1980 animado com as técnicas de hoje em dia.

Companhia das Focas (Seal Team)
Netflix

Se isso é no que diz respeito ao apoio aos humanos, os animais como soldados a serviço dos homens (tão errado em tantos níveis), a transferência de conhecimentos táticos e de guerra para o habitat natural poderia amenizar as coisas, mas faz o contrário. Companhia das Focas não tem uma história ruim, afinal de contas, o plot dos predadores que ameaçam a comunidade em narrativas baseadas no reino animal não são nenhuma novidade. Aqui tubarões e focas, como na natureza, encontram-se em lados opostos. Porém, a resistência, planos de ataque, sobrevivência e revide ganham conotações que vão além do mundo animal. Como pano de fundo, há uma grande amizade, uma frustração profunda, um grupo amalucado, um vilão muito mal e seu fiel escudeiro irritante.

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Não que os personagens não sejam interessantes ou o filme seja isento de bons momentos. Quando consegue se entregar ao mais lúdico e fantasioso, as coisas funcionam mais, como na hora em que Geraldo e Beth distraem os sentinelas com seu teatro de sombras ou mesmo com as invenções de Switch. É uma dessas que permite os momentos mais inventivos e impressionantes da animação, com muita experimentação de cores, luzes e texturas. As boas sequências de ação também garantem o ritmo e fazem com que o filme vá bem, a despeito da incômoda sensação de ver algo fora de seu tempo.

Companhia das Focas
Netflix

Talvez, se Companhia das Focas fosse uma animação de homenagem, voltada ao público adulto, a sensação fosse diferente. O brincar e fantasiar com a guerra com os pequeninos ficou para trás, como tantas outras coisas estranhas e tidas como comuns nos anos 1980 e 1990, por um motivo: é o tipo de propaganda de algo que nunca terá nada de positivo. Em algumas narrativas ainda existem personagens com características relacionadas à formação militar por uma questão estrutural, já que todos fomos criados vendo isso o tempo todo, mas é um tema que não tem porque ser central. Em defesa da animação, pode-se até dizer que existe um cuidado, ao fazer com que as armas sejam de brinquedo, não sejam letais, diferente da bomba real do início, mas a conotação ainda é a mesma.

E pode parecer uma bobagem, mas será que é o momento certo de começar um filme exaltando focas servindo humanos, ainda mais na guerra? O mundo como um todo passa por um momento de reflexão ambiental, com novas gerações com posturas muito diferentes e onde esse tipo de associação parece ainda mais deslocado. Assim, pode ter técnica apurada, ritmo e até personagens e passagens divertidas, mas Companhia das Focas mira no público errado e se torna um produto indefinido, deixando em dúvida se é só um filme sem noção. Porque hoje em dia há aqueles que não aceitam a evolução da sociedade, não acreditam nas mudanças climáticas e adoram a guerra. Mas não deve ser o caso, não.

Um grande momento
A armadura de polvo

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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