Crítica | CinemaDestaque

Corsage

Libertação no lugar de romantização

(Corsage, AUT, LUX, ALE, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Marie Kreutzer
  • Roteiro: Marie Kreutzer
  • Elenco: Vicky Krieps, Florian Teichtmeister, Katharina Lorenz, Jeanne Werner, Alma Hasun, Manuel Rubey, Finnegan Oldfield, Aaron Friesz, Rosa Hajjaj, Lilly Marie
  • Duração: 113 minutos

Há um fato muito inusitado na trágica história real da morte da imperatriz Elizabeth da Áustria, ou Sissi, como ficou mais conhecida. Ela foi assassinada por um anarquista enquanto caminhava na rua, com uma lima de serrar metal que perfurou seu coração, mas seu espartilho era tão apertado que o sangramento foi mínimo e ela ainda conseguiu voltar andando ao barco onde estava. O óbito só aconteceu depois, quando a arma foi retirada de seu corpo. Corsage, filme de Marie Kreutzer batizado com o nome da indumentária, nem chega perto dessa história, mas tem na peça de roupa um elemento poderoso para a falar sobre medo de envelhecimento, imposição de padrão e sensação de não pertencimento.

Sissi, a imperatriz não teve apenas uma morte trágica. Toda a sua história foi marcada pela decepção e pela tristeza. Ela foi uma mulher que viveu num lugar que não queria, coisas que não precisava, estava sob vigilância e julgamento constante, foi muitas vezes questionada e impedida de exercer o seu papel e só tinha momentos felizes quando se afastava daquilo que a consumia cotidianamente. Ainda assim, era dona de uma personalidade imponente e conseguia, por muitas vezes, se esquivar das imposições. Porém as marcas de tantos abusos e fatos devastadores moldaram sua vida, fazendo-o entrar numa espiral destrutiva e tornando-a refém do padrão e da tristeza.

Corsage
Robert Brandstaetter

Quando resgata a imagem da monarca, Kreutzer rompe com a romantização daquela que foi imortalizada pela série de filmes Romy Schneider – e seu lindo amor romântico pelo imperador Franz Joseph, vivido antes por Karlheinz Böhm e em Corsage por Florian Teichtmeister – e traz um pouco mais de realidade ao que se conta, sem abrir mão de toda a liberdade criativa. Com uma atuação visceral de Vicky Krieps (Tempo), encontra o desconforto e o deslocamento de alguém que não consegue se adequar e nem tem interesse nisso. Sua história começa em um tempo avançado, e já não conta com algumas presenças opressivas, como a da arquiduquesa Vitória, morta anos antes, mas conta com os traços devastadores e ausências deixados por ela.

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Corsage é um filme que se constrói na alternância entre universos que, mais do que literais, habitam a mesma pessoa. Há o espaço dos outros, onde ela precisa se adequar às normas impostas, e o espaço próprio, onde ela se livra das amarras e pode ser ela mesma. Além da mudança espacial, demarcada também pela estética, em cores, figurino, iluminação, trilha e canções com letras fortes, ali está todo um trabalho impressionante de interpretação, com a transformação dessa mulher na postura corporal, nos olhares, nos sorrisos. Ao mesmo tempo, há uma derrocada que transcorre paralela aos problemas com as imposições da corte, mas, no caso da imperatriz, tão intimamente ligada a elas: Sissi está envelhecendo.

Corsage
Robert Brandstaetter

Portanto, para além dessas duas realidades, há uma terceira, aquela que vai corroendo lentamente a protagonista e consegue contaminar todos os ambientes, até mesmo aqueles em que ela encontrava conforto. A diretora deixe evidente a escalada de eventos, ora expondo aquele intocado prato de comida, as medições corporais ou o fim de uma série de atividade nas argolas, ora deixando que a palidez, as olheiras e a silhueta falem por si; e não é óbvia ao mostrar a transição, da irritação à melancolia, passando pelo desalento. Para além das medidas corporais, outras marcas ressentem Sissi, algumas evidentes, no rosto e nos véus que o cobrem, outras imaginadas, na busca pelo desejo.

E ali está o espartilho, o corsage do título, marcando mais do que fisicamente o corpo daquela mulher, mas a prisão em que ela se encontra, que está na primeira fala daquele que a encontra e em sua própria cabeça, numa imposição de autoimagem que a persegue insistentemente. E que também, cada vez mais apertado, a faz diminuir de tamanho num movimento contínuo de encolhimento, numa eterna vontade de desaparecer daquele lugar, daquela existência. Em sua recriação histórica, Kreutzer, sem fugir da verdade de sua personagem e seu destino melancólico, usa toda sua imaginação para libertar Sissi do mundo e de si mesma. E é íncrível por chegar lá nos aproximando tanto daquela verdade caótica com tanta potência e perturbando tanto.

Um grande momento
Abandonando o jantar

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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2 Comentários
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Sandra
Sandra
28/01/2023 19:55

Você só não comentou sobre os elementos anacrônicos que vez ou outra surgem no filme, como a canção tocada na harpa, o cigarro com filtro (já existia na época?), a descrição que o médico faz da droga heroína, referindo-se a ela como semissintética, coisa que não havia em 1738, e o trator verde, dentre outras referências. A intenção disso seria, talvez, significar que muitos dos sentimentos e situações vividas pela personagem principal são contemporâneas, apenas em um contexto diferente?

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