Crítica | FestivalMostra SP

Currais

(Currais, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Sabina Colares, David Aguiar
  • Roteiro: Sabina Colares, David Aguiar
  • Elenco: Rômulo Braga, Débora Ingrid, Zezita Matos, Everaldo Ponte
  • Duração: 91 minutos
  • Nota:

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. A célebre frase de Edmund Burke vem ainda mais pesada após a sessão de Currais. Principalmente neste momento em que parece que tudo anda ao contrário em nosso país.

Entre o documentário e o drama, o filme de Sabina Colares e David Aguiar volta a uma passagem tenebrosa de nossa história e, como quase todas as nossas passagens tenebrosas, é uma dessas que está escanteada, é pouco comentada, pouco conhecida. Nos anos 1930, Getúlio Vargas instituiu uma política de eliminação das classes mais pobres no Brasil. As ações atingiram imigrantes, órfãos e miseráveis.

No Nordeste, campos de concentração conhecidos como “currais” foram criados para a segregação e o extermínio da população mais pobre, que sofria com a seca. Tudo isso parte de uma política conhecida como “higienização social”. Algo tão absurdo que é impossível não ficar com o estômago revirado. Embora seja algo documentado, muito pouco se fala sobre isso.

Currais, portanto, tem um papel importantíssimo ao rememorar essa que é uma história conhecida, mas esquecida no nosso país, principalmente agora, quando um movimento das elites começa a se desenhar em conformidade com interesses de exclusão e afastamento que justificaram ações como aquelas do passado.

Quem conduz o filme é o ator mineiro Rômulo Braga. Como Romeu, ele mergulha no sertão em busca de seu passado, tentando se entender e, ao mesmo tempo, entender tudo o que aconteceu com o seu avô, que registrou aquilo que passou nos currais. No caminho encontra pessoas e vai engrandecendo sua pesquisa.

Há boas sequências criativas e um excelente resgate de material de arquivo. Porém, o filme não consegue encontrar o equilíbrio. O jogo entre a ficção e o documentário funciona bem em um primeiro momento, mas vai se desgastando com o passar do tempo e, depois de uma boa sequência de arquivo, embarca na performance com sentido, mas sem potência.

Porém, apesar de todos os seus tropeços, Currais é um filme importante por trazer uma história que precisa ser conhecida por todos.

Um Grande Momento:
As fotos.

[43ª Mostra de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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