Crítica | Cinema

DC Liga dos Superpets

O melhor amigo (de aço) do homem (de aço)

(DC League of Super-Pets, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Jared Stern, Sam Levine
  • Roteiro: Jared Stern, John Whittington
  • Duração: 106 minutos

É muito bom quando uma produção entende que seu lugar não é o da sobriedade, e sim o oposto disso. Semana passada, o sucesso Agente Oculto mostrou que o mundo dos espiões perseguidos até a morte não precisa ser denso e introspectivo, nem contar com uma carga dramática extra para se validar enquanto espetáculo. DC Liga dos Superpets vai pelo mesmo caminho e só acerta, porque sabe que seu público (através da própria DC) já aguentou muita pregação existencialista, muita densidade vazia, sem entregar o que um grande filme de fato precisa. A seriedade não define qualidade de projeto nenhum, e é preciso desmistificar a relação com a comédia – mais especificamente, com a galhofa e a picardia. Uma piada bem contada costuma agregar mais pontos do que uma lágrima furtiva justamente pela dificuldade em arrancá-la. 

Os jovens Jared Stern e Sam Levine estreiam na cadeira de direção de uma animação com um resultado surpreendente. O primeiro levou anos assinando roteiros, tanto de live actions (Os Pinguins do Papai e Os Estagiários) quanto de animações da Warner (Lego Batman e Lego Ninjago); o segundo trabalhou na equipe técnica de muitos títulos, e assinou o roteiro de Nem que a Vaca Tussa. São profissionais com muita experiência no formato, mas ainda assim impressiona o cuidado com que tratam o material que têm em mãos, que nunca é tratado de maneira leviana ou preguiçosa. Eles não se sentem sentados em cima de um formato ou reféns de uma marca campeã impossível de ser contrariada; ainda que parte disso seja verdade, não transparece no resultado final qualquer espaço de tensão. 

DC Liga dos Superpets
Warner Bros. Pictures

Na tela, vemos mais do que leveza e profissionalismo, mas uma liberdade que aí sim podemos destacar, por se tratar de um conglomerado que não está preparado para ousadia ou derrota. Não espere um filme com piadas de cunho sexual, palavrões (ok, até tem), escatologia ou “quebra de valores familiares” – a ousadia aqui se trata de não se levar a sério mesmo, e deixar isso claro praticamente cena a cena, tirando sarro do cânone que é emulado. O universo das HQs, seja ele oriundo da DC ou da concorrente Marvel, trabalha muito mais em cima de conceitos bifurcados, ou imbuindo-se de uma seriedade pretensiosa ou de uma leveza que não deixa de se adular. DC Liga dos Superpets adentra um lugar mais raro, o da despretensão tão espraiada que o resultado é a demolição desse olhar superior cheio de autoindulgência. 

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Também não há no filme aquela arrogância que poderia transformar a diversão em aborrecimento, caso o filme fosse desrespeitoso com o que brinca. O fã de quadrinhos pode ficar despreocupado, porque todos os chistes envolvidos na produção tem sua dose de diversão, mas nunca transformam o universo em uma criação ridícula. Tem um tanto de homenagem em quase todas as abordagens, aproveitando características que o próprio filme entende de seus personagens. Eles estão em cena de maneira carinhosa, e nada disso impede que o título mude essa chave para mostrar como uma dose de sarcasmo não transmite superioridade. O filme se diverte com suas tiradas e com os clássicos lugares e personagens citados, tratados sempre com o respeito de quem entende a importância dos mesmos para várias gerações de fãs. 

DC Liga dos Superpets
Warner Bros. Pictures

Esse misto de carinho com sagacidade, de quem conhece o assunto sobre o qual fala e igualmente o público a quem é destinado, é um dos fatores cruciais para o sucesso do longa, que exala carisma. Existem os heróis clássicos que são os coadjuvantes da história, cuja identidade dispensa apresentações, mas os protagonistas de estimação – ou que estão na fila para adoção – é que elevam a produção. Dotados de um tipo de personalidade crucial ao cinema, aquela que nos revela mas também nos recheia de humanidade, cada um dos bichinhos, sejam heróis ou vilões, enchem a tela. Do personagem central, Krypto, até o surpreendente gatinho ou mesmo o cachorro que volta em uma das cenas pós-créditos, enche os olhos que tanto detalhismo tenha sido empregado para compor até mesmo pequenas participações, o que inclui até uma ponta LGBTQIA+ em cena. 

É dessa confluência de fatores que é feito o sucesso de DC Liga dos Superpets, uma animação que poderia não ter corrido qualquer risco, mas resolveu explorar todo o viés cômico de uma narrativa que, percebemos, não poderia ser abordada de outra forma. Contando também com algumas passagens de ação bem elaboradas, tanto em cores quanto em motivação e resolução, o filme estreia nos cinemas como um produto que verdadeiramente empolgante, que ninguém poderá acusar de falta de personalidade ou de incorrer em repetições. Estamos diante, então, de um filme de super heróis cuja curva dramática pode não ser das mais originais, mas cuja forma é decisiva para envolver o espectador de todas as formas, apelando para todos os sentimentos possíveis na hora de entreter. 

Um grande momento
O pôr do sol

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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